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quinta-feira, 2 de julho de 2015

Pensamentos de Bordo


_ There she is! Wow!
_ You've always liked her, right?
_ You know the answer!
_  Peraí, por que em inglês?
_ You know it always happens! Especialmente em se tratando dela. Ela me inspira! Daqui nem parece tão bonita, tão imponente. 
_ True! Conheço bem essa inspiração.  Tô te vendo agora mesmo back in time, na adolescência, sonhando  com ela. Você imaginando como ela seria 'in person'. Suas características, seus movimentos, seus gostos. 
_ Como não sonhar? Eu estudava a língua. Adorava língua. E ela tava sempre ali, referência da língua. Era nos livros. Eram os professores. Era a música. E na época não existia internet. Tudo era distante. Isso aumentava meu encanto, a sua magia. 
_ E a primeira vez, hein?
_ Ah... A gente nunca esquece! Compartilhar tudo com meu pai! Que bacana nós dois descobrindo juntos o que tanto nos fascinava! Lembro como hoje, a gente chegando ao som do Sinatra cantando. Essas agências de viagem sabem fazer a coisa! 
_ Piegas.
_ E eu lá queria saber?! Queria era estar lá! Foi naquela vez que conheci o Fantasma. Virou outra paixão! Got me addicted to it!
_ Olha, a gente está se aproximando!
_ E eu fico assim... emocionada.
_ Mas não é por causa dela!
_ Não é exatamente pelo destino, mas pelo trajeto! Da primeira vez pra cá tanta coisa aconteceu no caminho!
_ Isso! Isso me emociona! 
_Teve a segunda vez, dois anos depois da primeira. Short time, right? Nem tantas mudanças assim. Viagem em grupo: família e amigos. 
_ A vida era quase a mesma. Pouca coisa diferente naqueles dois anos.
_Teve a terceira  vez, catorze anos depois da primeira! That was a long time! Com a minha mãe. E a minha filha! Minha filha... Podia eu imaginar catorze anos antes que teria uma filha? Que não estaria mais casada? Que minha filha já estaria se comunicando em inglês? Curtindo comigo meu sonho de adolescência? Não é muita emoção!?
_ E agora quatro anos depois da terceira! Sem companhia de pai, mãe, filha, família, amigos. All by yourself!
_ All by myself, I WANNA BE...!
_ All by myself... more and more!
_ Quero estar sim. Sozinha. Agora que estou, digamos assim, mais madura! Definitivamente mais segura. Mais confiante. Mais consciente. Mais independente.Curtindo comigo esse momento. Eu em minha companhia. 
É muito caminho andado! É muito trabalho realizado! É muito esforço validado! 
É pra comemorar!
_ Olha, anunciaram a aterrissagem. Vamos lá, pára de escrever e ajeita a cadeira. Aperta o cinto.... E afrouxa o corpo. Estamos chegando!
_ Vamos nós! Curtir essa liberdade interna! 
Right through the very heart of it, New York, New York!!!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Salve 2015!

2014 vem chegando ao fim. E como geralmente acontece no mês de dezembro, as reflexões me invadem o pensamento, e mergulho em lembranças recentes e desejos futuros.

Ando um tanto expectadora ultimamente, observadora das pessoas e situações, como quem assiste a um filme projetado na tela de cinema. Neste filme, incomoda-me assistir a algumas cenas que se repetem de maneira desinteressante. São personagens que mantêm o mesmo padrão de comportamento, agindo reincidentemente com falta de cordialidade e educação. O mais incrível é que cada um é o autor de sua própria história neste filme - e ainda assim, as atitudes são as mesmas. Falta criatividade ao roteiro.

Falo do excesso de egocentrismo e da carência de gratidão em algumas pessoas. De sutis a grosseiros exemplos, temos todos uma história para contar. Basta observar, inclusive a nós mesmos. Afinal, estamos todos sujeitos a condenar o filme sem perceber que dele corremos o risco de, por vezes, participar.

A moça recebe oportunidade de desenvolvimento no trabalho, é promovida, prestigiada, mas permanece insatisfeita. Quer escolher o que fazer e com quem trabalhar. Age com mau-humor, como se o mundo estivesse em débito com ela. O ano foi financeiramente difícil para o rapaz. E ele reclama, esbraveja, relutando em perceber tantas outras coisas boas que viveu. Em uma celebração de final de ano, o funcionário é sorteado com o melhor brinde da festa. Sua reação de indiferença parece dizer que a empresa simplesmente cumpriu com alguma obrigação devida. Ao sair pelo portão do edifício, a jovem percebe uma mulher se aproximando. Ela segura o portão para a mulher, que entra sem sequer olhar para a menina. A empregada faz um doce para surpreender a patroa. E a madame reclama pelo que foi feito sem que ela fosse consultada.

São exemplos banais, cotidianos, que a todo instante despontam ao nosso redor. Talvez os personagens atuem sem a intenção de atingir o outro. Talvez simplesmente não se incomodem se o outro é atingido ou não. Importa sim é o umbigo de cada um. E que se dane o mundo que eu não me chamo Raimundo!

Gratidão é sinal de reconhecimento, carinho e respeito. Gratidão é amor - às pessoas, às situações, à vida. É a humildade de olhar para fora de si e valorizar o que e quem está ao seu lado. Gratidão exige cultivo diário, o exercício constante de autovigilância para captar como cada situação lhe beneficia e como retribuir o benefício recebido - o que pode ser bem simples. Gratidão pode manifestar-se com um gesto, um sorriso, uma palavra ou simplesmente uma atitude interna de positividade. Estamos todos interligados de algum modo. Ser grato é, portanto, admitir que o outro é importante, pois a sua mera existência afeta de alguma forma a nossa vida.

Neste final de ano, revendo o meu próprio filme em 2014, tenho uma feliz sensação de vitória, por conquistas internas e alcance de mais um degrau na escalada de crescimento pessoal. Do abstrato ao concreto, do material ao imaterial, do lúdico ao sério, foram várias realizações. À custa de esforço. E sempre com reconhecimento e gratidão.

Brincando com a ideia de filme de cinema, fecho os olhos agora e imagino estar recebendo um Oscar por minhas conquistas em 2014.
Emocionada, leio minha lista de agradecimentos a tudo e todos que contribuíram para o meu sucesso:
Obrigada à minha família pelo apoio emocional sempre presente. Obrigada aos colegas de trabalho pela confiança na minha capacidade profissional. Obrigada aos amigos próximos pelo carinho. Obrigada aos amigos distantes por estarem presentes - principalmente nas curtidas do facebook. Obrigada aos amigos da Canto pelos momentos felizes e cumplicidade através da música. Obrigada à minha secretária pelo cuidado com a minha casa e tudo de tão íntimo meu. Obrigada aos funcionários e vizinhos do meu prédio pela paciência com a reforma do meu apartamento. Obrigada ao meu mestre de obra, fiel escudeiro nos momentos de desespero durante a obra.
Obrigada à minha disponibilidade interna de querer tornar-me uma pessoa melhor, respeitando as minhas dificuldades, mas ainda assim buscando superá-las.
Obrigada à VIDA, sem a qual nada existe.

Abro os olhos e revejo a cena de existência imaginária, porém de intenção absolutamente real. Deixo aqui minha  gratidão profunda a tudo e todos que cruzaram o meu caminho em 2014.

Agradeço de antemão o ano que se aproxima pela oportunidade de poder vivenciá-lo.
E desejo que cultivemos todos muita gratidão no coração. Que façamos do novo ano um ano de muito  reconhecimento, carinho, respeito e amor!

Feliz 2015 para nós!

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Brava Gente Brasileira

Vitória, 06 de outubro. Dia seguinte ao primeiro turno das eleições 2014 no Brasil.
Acabo de sair do aeroporto.
_ Taxi, senhora?
_ Sim. Estou indo para Guarapari.
_ Nossa tarifa é fixa. Venha comigo. Pode entrar, que eu chamo a moça para lhe entregar o recibo.
O tipo amulatado, alto e robusto chamou minha atenção por algum motivo. Pude sentir gentileza no seu tom de voz e suavidade por trás do corpo volumoso. Balancei a cabeça, indicando que concordava. Ele segurou minha pequena mala e a repousou no banco de trás do Doblò, onde sentei-me em seguida.
Iniciei o que eu esperava ser uma breve interação, como normalmente faço em viagens de taxi mais longas, para ganhar a simpatia do motorista de quem estarei refém por algum tempo.
_ O tempo está bem fechado! Tem chovido por aqui?
_ Um pouco. Mas logo abre o sol quente. E à noitinha chove de novo.
_ Mas o bom é que aqui é sempre fresco! Estou indo visitar meu pai. Ele mora em Guarapari.
_ Ah, que beleza! Ele é daqui?
_ Nasceu em Vitória, foi pro Rio menino e voltou quando se aposentou.
_ É, a gente quer sempre voltar pras nossas raízes. Eu tô doido pra me aposentar e voltar pra minha terrinha.
_ O senhor é de onde?
_ Teófilo Otoni, em Minas Gerais. Sou mineiro, uai! Na minha cidade todo mundo conhece todo mundo. A gente sabe que Fulano é filho de Sicrano, que é casado com Fulana. Ô coisa boa! Lá o sujeito passa pela porta da igreja e faz o sinal da cruz. Quantas vezes ele passar, tantas vezes vai fazer! Lá existe respeito, gente honesta! Aliás, honestidade é coisa rara! E nesse ramo de taxi então, ih... o capeta vive tentando a gente! Se bobear, ele te pega!
Percebi nesse momento que o motorista era daqueles que gostam de conversar e que a viagem seria movimentada. Quase me arrependi de ter iniciado a conversa, mas era tarde demais.
_ Pois a senhora sabe que outro dia peguei um sujeito muito bem vestido bem ali onde peguei a senhora? De terno, gravata e uma maleta 007. Ele veio perguntando sobre a minha vida, se esse carro aqui era meu. Eu disse que não! Tenho dinheiro pra ter um carro meu não! Então ele me disse que ganhar dinheiro era muito fácil. E abriu aquela maleta cheia de notas! Vixe Maria, moça! Eu nunca tinha visto tanto dinheiro junto! Fiquei até nervoso!
Diante da eloquência do meu interlocutor, achei melhor lançar mão do meu cardápio de interjeições e deixar que ele continuasse seu discurso. Falei simplesmente:
_ Nossa!
E ele continuou:
_ Num é que ele me disse que era tudo falso?! Eu arregalei o olho e não quis saber não! Olha, dona, tenho um medo de polícia que me pelo! Esse negão grandão que a senhora tá vendo se treme todo na frente de polícia. Se eu fosse metido em encrenca, bastava a polícia chegar perto de mim e eu confessava tudo, tudinho! Fui criado assim. E crio os meus filhos do mesmo modo! A menina tá encaminhada, casada. O menino ainda tá se formando... arruma uns biscates pra ajudar em casa de vez em quando. Eu sempre falei pra eles: "Se rico rouba, não acontece nada porque ele tem dinheiro pra pagar advogado. Já o pobre rouba e não tem jeito. Morre na cadeia. Com razão ou sem razão!" Sou filho do Seu Antônio, moça. Meu pai me criou no bem!
Comecei a gostar daquela conversa, mas não ousei fazer perguntas. Curiosa para saber o que viria adiante, continuei sacando minhas interjeições:
_ Isso mesmo!
_ Eu fui criado na roça, moça. Ajudava na lavoura. E só calcei um sapato com doze anos de idade! Vim pra cá tentar a vida e trabalhei muito. Mas sempre com honestidade! Eu era jardineiro numa casa e todo mundo gostava de mim. Eu lavava o carro dos meninos nas horas vagas. Eles gostavam de mim. Um dia virei pra eles e disse: Olha, eu só vou continuar a lavar o carro d'ocês  se ocês me ensinarem a dirigir. Esse negócio de eu ter que chamar pra manobrar toda vez que é preciso mudar o carro de lugar não dá certo não! Vocês não vêm e eu atraso o meu serviço. E num é que foi assim que eu aprendi a dirigir? E me tornei o motorista da família!
_ Que bacana!
Ainda sem mais perguntas - e sem saber seu nome - eu ia me interessando pelas histórias do cabloco.
_ Eu levava a Dona Fátima pra tudo que era lugar. E ela gostava de mim. Queria sempre me dar uns trocados no final da corrida. Eu dizia que não, porque eu já recebia dinheiro do patrão. Mas ela ficava braba, insistia. Um dia fui falar com o seu Fernando o que tava acontecendo. E ele disse 'Se minha mulher quer lhe dar dinheiro, aceite! Deixe ela!' Sabe, dona, fiquei mais tranquilo de saber que o seu Fernando sabia. Eu não queria nada escondido não!
Assim foi também quando conheci minha mulher. Eu quis logo conhecer o pai dela e falar das minhas intenções. Mulher moderna da capital, ela disse que não precisava. Mas eu só sosseguei quando fui falar com o pai dela. E, olha, tem vinte e cinco anos que estamos juntos e os pais dela me adoram. Eles sabem que podem confiar em mim. É Edmilson pra lá, Edmilson pra cá.
Ah ... Edmilson é o seu nome (pensei).
_ É isso aí, Edmilson.
_ Sabe, moça, quando o caçula tinha seis anos, ele cismou de ir comigo mais minha mulher ao supermercado. Eu não queria levar, mas a mulher insistiu. Era a primeira vez que o moleque ia a um mercado. E então eu tive uma conversa séria com ele. Expliquei que ele ia ver muita coisa diferente. Biscoito, bala, iogurte... Mas ele não podia pedir nada não! Se sobrasse dinheiro no final, eu podia comprar alguma coisa. Mas ele NÃO podia pedir!
_ Tá certo!
_ Pois bem, chegamos lá e começou tudo direitinho. Primeiro corredor, segundo corredor... Moça, num é que no terceiro corredor o menino endoidou?! A gente passou pelos doces e os olhos dele começaram a brilhar. Ele virou pra mim e começou 'Eu quero aquele! E aquele! E aquele!' Lembrei a nossa conversa e pedi pra ele ficar quieto. E ele continuou. Balançava o corpo, balançava as pernas. E começou a gritar. Que queria, que queria... Ah, dona, me deu um negócio... Eu segurei ele pela orelha, fui puxando, fui puxando, fui puxando... E já ia tirar o moleque do chão, quando ele parou. Eu olhei firme pra ele e disse: O que foi que lhe falei? SÓ se sobrar dinheiro! PÁRA com isso!
_ Que coisa!
_ Mas olha, até hoje, que ele tá com dezenove anos, quando vai comprar uma coisa, me pergunta o que eu acho que é melhor. Num pode dar mole não! Essa garotada tem que aprender!
_ É isso!
_ Eu é que sei, que virei a noite na porta da UFES pra conseguir pra ele uma vaga no curso de inglês.
Ai, Edmilson falou em educação! Estudo de inglês! Meu interesse de fato se fez. Não resisti e perguntei:
_ O senhor conseguiu? Ele estuda inglês?
_ Tá estudando sim, senhora! E de graça! Vai aprender inglês! E depois vou juntar dinheiro pra um curso de informática. Hoje é tudo computador, né?  Com computador e inglês, ele vai ganhar dinheiro.
_ Isso mesmo!  (Minha interjeição foi enfática e genuinamente verdadeira!) O inglês é muito importante, Edmilson. Abre muitas portas de trabalho!
_ Dona, eu sei escrever e sei ler. Mas não entendo direito o que eu leio. Sou analfabeto funcional. Mas meu filho vai ter um futuro melhor!
Foi nesse momento, que minha isenção chegou ao fim. E fui eu quem começou a falar:
_ Você está certíssimo, Edmilson. O seu filho vai ter um futuro melhor! Insista pra que ele estude. O estudo é o que faz a gente crescer na vida. E o que a gente aprende ninguém tira da gente. A honestidade que você passa pra ele é também uma riqueza que ninguém vai lhe tirar. Parabéns pela pessoa que você é, Edmilson. Parabéns pelo modelo que você passa para o seu filho. Esse menino vai ser gente na vida!
Edmilson virou o rosto pela primeira vez durante toda o trajeto. Olhou-me nos olhos com orgulho e agradeceu. Parou o carro, em seguida.
_ Chegamos.
_ Mas já? (Meu pensamento falou alto.)
_ É, a conversa tava boa e a gente nem sentiu a viagem!
Saí do carro, paguei a corrida, e recebi um caloroso aperto de mão. Retribui o cumprimento de coração.
Entrei no prédio do meu pai e fiquei pensativa por alguns instantes. Imaginei quantos Edmilsons nascem, e quantos de fato sobrevivem em um país repleto de tentações.
Pensei no dia anterior, e nos milhões de brasileiros que foram às urnas na expectativa de um futuro melhor para os seus filhos. Senti um enorme aperto no peito. Quisera fosse a emoção pela certeza de um Brasil promissor! Mas foi um grito sufocado no misto de dúvida e esperança.
Respirei fundo e fiz uma oração silenciosa, pedindo proteção à brava gente brasileira.
Que Deus ilumine nossos governantes, sejam eles quem forem! E que nos livre do mal!




quinta-feira, 15 de maio de 2014

Apaixonada



Não sou dada a paixões. Mas admiro quem as tem. O fervor ao falar sobre o ídolo único e exclusivo,  a cegueira ao defender o time melhor de todos do coração, a total parcialidade em favor do partido político indefectível, o arrebatamento causado pelo amor da vida! As pessoas apaixonadas vivem o momento presente sem pensar no ontem ou amanhã, com todas as vantagens -e desvantagens- que intensificar o hoje nos apresenta. Tudo é incomparável, excepcional, perfeito. Nada é como aquilo, aquele ou aquela. O fogo da paixão consome a mente racional e impregna de calor o corpo, que arde e enrubrece por sua fonte de prazer.

Deve ser muito bom isso! Mas admito que para minha personalidade planejadora e controladora, a entrega de olhos fechados é um bem difícil. Viver a intensidade do presente sob o véu da ilusão me aflige. Sempre preferi a verdade sincera, com seus vícios e desapontos. Mas entendo que a fantasia é muitas vezes necessária para movimentar a vida. E mais do que entender, neste momento minha alma sente sede de faz-de-conta. Talvez pela idade que avança e faz querer novidade. Talvez pela nostalgia de buscar acreditar em conto de fadas. Talvez pela simples mente permitir-se despertar. Sem controle nem limites. Simplesmente. O que sei é que ando em busca de delírio, devaneio, fascínio, entusiasmo, imprevisibilidade... Paixão. E se não consigo calar a inquietude, que ela solte sua voz com força total!

Estou cansada da estrada reta com casas certinhas de cores harmônicas. Quero o roxo com amarelo e o vermelho com laranja em construções assimétricas numa estrada sinuosa de curvas inesperadas. Quero descer do carro refrigerado e caminhar sob o sol com pés descalços, sentindo a sola arranhar e o sangue circular pelos músculos do corpo. Quero abrir os braços para o vento que sopra em minha direção e me sentir voar, sem medo de cair. Quero dançar todos os ritmos e rodopiar pelas ruas. Quero correr, correr... até desfalecer de alegria. Quero desejo, atração, emoção... Vida. E viver intensamente!

Ainda que eu venha a constatar que existem muitos ídolos iguais ao meu, que meu coração não reconhece mais aquele time, que meu partido político tem muitas falhas e que a vida é extensa demais para se ter um único amor, terá valido a pena experimentar e acreditar que não haveria fim. Sem arrependimento. Completamente apaixonada!

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Dezenove Desejos

Desejo a você
boas conversas ao entardecer.
Sol morninho para aquecer,
saboreando as delícias de Jamie Oliver.
Rosas e tulipas em buquê
e um relógio Cartier.
Alegria pra dar e vender.
Trabalho bom de fazer
e muitos momentos de lazer.
Massagem no corpo até amolecer
e (só) um pouquinho de vodka pra beber.
Chocolate quente pra sorver
acompanhado de sorvete de creme.
Conquistas para agradecer
e sucesso sem sequer perceber.
Muita Agatha Christie pra ler
e outras histórias a conhecer.
Um bichinho pra proteger
e uma planta pra cuidar com prazer.
Desejo a você
uma vida linda de viver!

sábado, 8 de março de 2014

Feliz Dia Internacional da Mulher!

Um amigo perguntou há algum tempo minha opinião sobre uma data específica para a celebração do dia da mulher. Na ocasião, há cerca de dois anos, coloquei-me contra o fato de se instituir data comemorativa ao dia da mulher mas não ao dia do homem. Em minha opinião, isso era um indício de discriminação contra o sexo feminino, pois, se homem e mulher de fato tivessem direitos iguais, não se justificaria estabelecer qualquer data especial para um e não para outro. Achava que todo o alarde em torno do oito de março era, na verdade, um reforço velado ao preconceito e sentimento de superioridade do homem, um prêmio de consolação do senhor dominador para o "sexo frágil".
Pois bem, minha opinião mudou. Acordei hoje pensando no progresso da figura feminina no mundo. Na luta contínua e tantas vezes silenciosa de muitas mulheres contra o desrespeito. No avanço social, político e econômico da mulher ao longo dos anos. Na multiplicidade de papéis que as mulheres acumulam. E senti um enorme orgulho de ser mulher e ter uma data para celebrar o meu  dia.
Dia meu, da minha filha, da minha irmã, da minha mãe, das minhas primas, das minhas tias, das minhas amigas. E de todas as mulheres, próximas ou não, conhecidas ou não.
Recentemente, minha tia, que vem de família grande e muito humilde, contava que sua mãe formou as cinco filhas com o princípio de jamais aceitarem qualquer manifestação agressiva de homem algum. Isso porque a mãe, embora nunca vítima do pai, conheceu mulheres que chegaram inclusive ao óbito em decorrência de espancamentos causados por seus maridos. Falava ela de casos ocorridos no interior do estado do Rio de Janeiro na década de 60 - não de terras ou épocas distantes. Muitas ações violentas e injustas com certeza permanecem, mas inúmeras outras felizmente foram banidas. E hoje a maciça maioria das mulheres se reconhece como ser independente, pensante, opinante. Submeter-se à força física e pretensa superioridade masculina é uma realidade cada vez mais distante e menos presente.
É importante que nós, mulheres, tenhamos orgulho sim! E possamos transmitir às nossas pequenas fêmeas o sentimento de auto-valorização e auto-estima desde a mais tenra infância. Precisamos enfrentar com toda feminilidade e firmeza qualquer vestígio de dominância masculina. E acreditarmos do alto dos nossos saltos em nós mesmas e em nossas capacidades.
Venho de uma ascendência de mulheres fortes que marcaram, cada qual ao seu modo, seu espaço no mundo. Mãe da minha mãe,  minha avó foi mulher de personalidade marcante, dona de casa de pensamentos próprios, matriarca defensora dos filhos e netos, mística devota, modelo de honestidade e formação de valores, abrindo para a filha as portas do estudo como fator de libertação. Minha mãe, embora criada para ser professora formada pelo Instituto de Educação nos anos dourados, conquistou sua colocação em concurso público e galgou sua independência financeira, a despeito do marido conservador. Transformou-se em mulher moderna, independente, e fez da liberdade seu lema de vida. "Viva e deixe-me viver" foi a máxima condutora da formação de suas filhas, a quem legou o desejo de alcançar a felicidade através da não-dependência, para a qual a emancipação financeira era condição sine qua non. Agradeço às mulheres da minha vida os exemplos que cultivei desde cedo para construir meus próprios arquétipos de feminino, compartilhados e acrescentados por outra figura de enorme importância: minha irmã.  E me empenho na formação da mais jovem participante deste clã familiar. Que minha filha mantenha em si o orgulho de ser mulher, permitindo-se as dualidades de força e fraqueza, rigidez e flexibilidade, alegria e tristeza, sensatez e loucura. Porém a certeza única e indubitável de jamais ser inferior ao sexo masculino.
Não defendo um discurso feminista, mas feminino. Reforço o ideal de homem e mulher em parceria, harmonia, complementaridade. Que estejamos todos no caminho do reconhecimento de homens e mulheres como seres que merecem igual respeito. Seres humanos.
E  que venhamos ambos os sexos, portanto, a celebrar o dia de hoje. A todas as mulheres do mundo, feliz Dia Internacional da Mulher!

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Casa de Pai

Ele diz que não gosta de domingos. Ninguém chega, mas somente parte aos domingos. É o dia em que a filha vinda de longe vai embora e ele vai sentir saudade. 
Bem sabe ele que ela também vai sentir falta do homem de terceira idade. Mas ela não desgosta dos domingos porque sabe que vai voltar. Ele poderá visitá-la em sua casa. Entretanto, não é a mesma coisa. Casa de pai é diferente! É mais gostoso que a casa da gente!
Casa de pai tem retrato. Tem mingau de aveia quente no prato. Tem soneca depois do almoço. Tem afago do velho moço. Tem mapa-mundi na prateleira. E poesia do Bandeira. Tem livro com dedicatória da neta. E fotos de mais de uma década. 
Casa de pai tem céu azul. E caminhada na praia de norte a sul. Tem mar e mata no Morro da Pescaria. E marshmallow na sorveteria. 
Casa de pai tem tudo diet: suco, bolo e picolé. Tem cafezinho com cafuné. E açúcar, somente no coração desse senhor com jeito de meninão - que fecha os olhos quando sorri e gosta muito da Lili.
Casa de pai tem sempre uma boa história, seja no papel ou na memória. Das lembranças dos tempos do bonde aos campeonatos de xadrez, tudo tem a sua vez. Dona Aurea lhe apresentou o mundo da literatura. Benício tinha sapatos gastos. E pouco a pouco o menino foi desenvolvendo seus gostos, criando ambições e realizando conquistas. Com filhas de sangue e filhos de coração, a família desse pai foi crescendo em emoção - de ver filhos se formarem ou casarem. Casa de pai é assim: a gente revive a meninice e juventude - dele e nossa.
Casa de pai tem gostinho de ano novo, com pisca-pisca na grade e vinho branco à tarde. Tem varanda com planta e brisa fresquinha. Tem muito DVD e seriado na tevê.
Em casa de pai, o relógio anda devagar e em quatro dias se pode brincar, cantar, fazer muita coisa boa. Rir à toa, do presente e do passado. Em casa de pai não se fica cansado. A gente deita cedo e dorme bem. Casa de pai faz a gente virar criança e fazer rimas como na infância. 
Pai, não precisa se preocupar porque a filha vai voltar. Afinal, Guarapari é logo ali. Ela volta logo. E vai chegar em um domingo!

domingo, 22 de dezembro de 2013

É preciso saber viver!

A gente cruza com pessoas no meio do caminho e muitas vezes deixa de manter contato. Um certo dia chega a notícia de que aquela pessoa se foi, finalizou o seu percurso e não volta. Isso aconteceu em um final de ano, quando todos imaginamos um futuro cheio de boas surpresas e alegrias. Agora não há mais tempo para planos, intenções ou expectativas com aquele que não está mais aqui. Rir, chorar, brincar, amar ... tudo se foi. Acabou o tempo, expirou o prazo, foi-se a oportunidade.
Mas o relógio não para. Dezembro avança, o ano velho finda para um novo ano começar. Fé no tempo vindouro, trazendo luz e felicidade. Resiste o instinto de sobrevivência da natureza humana - otimista, confiante, ávida por vida. Segue-se com a força emergente de onde jamais se poderia imaginá-la existir. E uma planta verde brota enchendo o coração de esperança. Ainda que a dor da perda permaneça comprimindo a alma, é preciso respirar fundo, seguir adiante e continuar a viagem. 
Surge então a oportunidade de aprendermos a valorizar tudo e todos - inclusive nós mesmos, enquanto o tempo nos permite. Nada de deixar para amanhã o que se pode dizer hoje! Nada de acreditar que o outro entende o que não é claramente dito! Nada de vergonha do arrependimento! Nada de medo de desnudar os sentimentos! 
Urge dizer para a pessoa que se ama o quanto ela é amada. Filhos, amigos, vizinhos, funcionários, colegas, familiares, amores ... Quem quer que seja que saiba da sua importância em nossas vidas. Que ouçam mais e mais os nossos agradecimentos por suas existências. Que tenham a certeza de que são  queridos, amados cada um ao nosso modo particular.
Que o novo ano nos traga a humildade de olhar ao redor e reconhecer o valor de quem está próximo, sempre disponível, e por isso mesmo tantas vezes negligenciado. Que possamos também despertar o nosso amor próprio - não de maneira arrogante e prepotente, mas com a sinceridade que a auto-estima permite ter. E que, assim, possamos reconhecer a responsabilidade das nossas atitudes no mundo e os efeitos que elas provocam em tanta gente. 
Que possamos nos perdoar por nossos erros e aceitar sem culpa ou julgamento o que passou. E que a cada tropeço possamos aprender a traçar um caminho mais reto, correto, em direção à verdade.
Que cada dia desse novo ano seja uma gota de experiência, um passo de auto-conhecimento e um degrau de evolução. Que venhamos a conviver e compartilhar alegrias com todos aqueles que amamos, sem exceção. Para que ao final da estrada possamos olhar para trás e ter a certeza de que o caminho foi bem percorrido, sem dúvidas.
Bem-vindo 2014! Com força, fé, vontade e muita coragem de viver e crescer sempre!

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Femme Fatale


Décimo-quarto dia de viagem à Europa. A estada de uma semana na Inglaterra para uma conferência de trabalho possibilitou-me uma pequena extensão a países próximos. A Europa é mesmo assim: Vai-se de um país a outro em um rápido turbinar sob asas ou em um expresso deslizar sobre trilhos. Fez-se então a oportunidade de, partindo de Liverpool, traçar o roteiro de passeio a Paris e Amsterdam.
A propósito dos temas expostos na conferência, dos lugares visitados, das pessoas que encontrei e dos sabores que experimentei, foram muitos os pensamentos e as sensações que me invadiram. E são justamente essas as minhas maiores alegrias ao viajar: abrir os olhos, despertar os ouvidos, apurar o olfato, aprimorar o paladar, experimentar diferentes sensações corpóreas. Enfim, expandir conhecimento e consciência através de experiências sensoriais, seja diante de situações inéditas ou situações conhecidas que adquirem então uma nova percepção.
São diversos os assuntos que eu gostaria de desenvolver e compartilhar. São variados os temas sobre os quais quero escrever. Em diferentes experiências que venho vivenciando ao longo desses dias, furacões de pensamentos se aproximam, lampejos de ideias reluzem com intensidade e esmaecem de súbito. É grande o anseio de registrar o que tantas situações me fazem sentir, mas isso nem sempre é possível de imediato. E a ventania se acalma, as luzes se apagam, os pensamentos adormecem. Embora aquietado, o desejo de escrever continua vivo, aguardando o momento de despertar.
E neste exato instante, quando os relógios de Amsterdam marcam 21 horas do dia 20 de abril de 2013, sob o céu ainda dourado de sol, assalta-me a oportunidade ansiada. Na banheira deste confortável hotel no 'Museum District' da capital holandesa, relaxando após um dia de muita caminhada, penso no início do filme 'Femme Fatale'.
O calor da água morna, os ladrilhos azulados da parede e um relógio na borda da banheira me fazem imaginar ser Laure Ash, a sensual protagonista de Brian De Palma, mergulhada em lembranças. As imagens que construo, entretanto, não me trazem angústia, como à sedutora personagem, mas enorme contentamento.
O que lembro é um belo rosto desconhecido de mulher, que avistei no aeroporto de Paris há oito dias. Voltam-me os pensamentos e o que desejei ter podido escrever ali. Na quietude deste momento, encontro as condições ideais para que pensamentos e emoções transformem-se em palavras escritas.
Combinamos um encontro no Charles de Gaule, eu e o meu amor, onde iniciaríamos nosso pequeno recesso europeu - eu vinda de Liverpool e ele vindo do Rio de Janeiro. Meu voo foi o primeiro a chegar, conforme previsto. Aguardando por ele, distraí-me acompanhando franceses e estrangeiros atravessarem o portāo de desembarque. Noite fria e chuvosa; pessoas com os corpos cobertos por calças compridas, casacões, gorros e cachecóis em cores escuras. Pessoas comuns.
Meus olhos foram então capturados por um rosto singular, traje incomum, linguagem corporal particular. Uma mulher pouco ordinária naquela multidão. Com cabelos compridos e ondulados cor de mel, pele bronzeada, altura mediana e corpo esguio, ela naturalmente se destacaria, pois era muito bonita. Mas não foi simplesmente a sua beleza que me chamou atenção. Sua feminilidade era esfuziante. E esse era o rastro que ela deixava ao caminhar. Maquiagem discretamente notável, pernas torneadas protegidas contra o frio em meia-calça grossa, saia elegantemente curta, sobretudo cobrindo uma blusa de tecido leve que revelava ligeiramente seu colo por baixo do decote em V. Botas longas de salto alto. Postura ereta. Caminhar confiante e imensamente feminino.
Acompanhei a mulher com os olhos pelos poucos segundos em que ela passou por mim, mas mantive sua imagem em meu pensamento por um bom tempo. Imaginei que ela fosse uma mulher independente e profissional bem-sucedida. Passei meu tempo de espera construindo a protagonista da minha história e procurando explicação para tamanho impacto que a mulher me causara. Por fim, não foi difícil entender: aquela mulher gritou a voz que em mim necessita de liberdade. Voz outrora rouca e agora fortalecida, a minha voz-mulher. A bela fêmea que assisti atravessar o saguão do aeroporto tornou-se a heroína da minha imaginação e o espelho dos meus pensamentos. Ela expôs ousadamente que confiança, segurança e sucesso profissional não anulam a feminilidade que toda mulher deve permitir-se ter.
Perfume, maquiagem, cores, adereços não são símbolos de fragilidade. Sensualidade não é frivolidade. Vaidade não invalida respeito. E é importante sim, que toda mulher, quer seja em Liverpool, Paris, Amsterdam, Rio de Janeiro ou qualquer parte do mundo, exercite sempre a sua feminilidade. Que as mães ensinem às filhas a arte de desenvolver os sentidos femininos: o olhar sensível, o gosto suave, o toque delicado, o cheiro doce, o som da alma. E que toda mulher do planeta sinta orgulho em ser feminina.
Aliviada por organizar meus pensamentos em palavras, trago minha mente de volta ao momento presente. Olho para o relógio e constato que é hora de me arrumar para o jantar. Já é noite no céu. Envolvo-me no roupão de banho e procuro o que vestir. Retiro da mala as botas de cano alto, a meia-calça, o sobretudo e um vestido. Separo meu Kenzo Flower e escolho cuidadosamente as cores da sombra e do batom. Decido usar brincos mais chamativos esta noite.
Daqui a pouco estaremos no restaurante In De Waag, em Nieuwmarkt. Vou degustar os sabores da Holanda e deixar as minhas marcas de batom no copo de vinho.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Divagações de um Pré-Embarque


Desde adolescente adoro o ambiente de aeroporto. O vai-e-vem, o  chega-e-sai, o chora-e-ri, as pessoas bonitas (e as nem tanto assim), os estilos diferentes ... Enfim, chegar algumas horas antes do voo não é somente cumprir uma recomendação das companhias aéreas, mas um grande divertimento.
Praça de alimentação do aeroporto Santos Dumont.  No aguardo do horário de embarque para uns dias de férias em Floripa, busco um lanche querendo  fazer hora e satisfazer o estômago. Na fila para o caixa da lanchonete, penso reconhecer à minha frente  os longos cabelos ruivos e o corpo esbelto de uma atriz que recentemente assisti no palco com texto de Artur Xexeo. No momento em que ela se vira para pegar a carteira na bolsa, me vem a certeza de quem é a mulher. E percebo então que ela está usando óculos escuros - em uma praça de alimentação fechada, isenta da luz do dia. Fico imaginando por quê. Para esconder seu rosto famoso? Ou, ao contrário, para chamar atenção para si? Para ocultar olhos que possam estar cansados? Para criar um 'look' particular? Engraçado  é que algum tempo mais tarde, na sala de embarque, identifico uma outra atriz com o seu Ray Ban no rosto. Deve ser mesmo coisa de global, não muito compreensível para uma reles mortal.
Retiro minha nota no caixa e me dirijo ao balcão. Levanto o papel,  olhando educadamente para a atendente e esperando que ela se dirija a mim. Nada acontece. Verbalizo, então: Dois pães de queijo e um expresso, por favor. Ela vem em minha direção e indaga: Dois pães de queijo e dois expressos? Repito, já sem tanta educação: Dois pães de queijo e UM expresso!  Após um pequeno instante, ela me estende um saquinho de papel e uma xícara de café. Pego o meu lanche e sento-me a uma mesa próxima. Abro o saquinho e vejo apenas um pão de queijo. Volto ao balcão, lembrando  à moça do lado de lá que eu havia pedido dois e recebido apenas um pãozinho. Ah, são dois é? Indaga ela com olhar distante. Percebo que se eu dissesse  serem quatro, receberia o meu pedido em dobro. Pouca diferença faz para ela. Tenho um lâmpejo de impaciência, que logo se transforma em curiosidade. Qual será o motivo de tamanha distração? Patetice nata? Indiferença em relação ao trabalho? Descaso pessoal? Não... Acho que isso não! Ela me entregou inclusive um sorriso juntamente com o segundo pão de queijo... Prefiro imaginar que ela estava pensando em alguma situação muito boa que viveu na noite anterior! Daí a mente fora do corpo naquele momento. É, certamente isso!
Volto à mesa de origem e passa por mim uma mulher afoita, puxando rapidamente sua mala de rodinhas. Em seguida, vejo  uma carteira feminina verde sobre a mesa vazia ao meu lado. Penso  se pertenceria à viajante apressada, mas ela já se foi. Fico observando as pessoas ao redor, tentando entender se alguém teria deixado uma carteira para marcar o lugar enquanto iria comprar algo para comer. (Tudo é possível!) Logo noto que não sou a única observadora do local. Um funcionário da lanchonete se aproxima da mesa e permanece em pé ao lado da carteira olhando ora para ela ora para as pessoas próximas. Fico imaginando quais seriam as cenas seguintes a esse capítulo. Passados poucos minutos, o homem pega a carteira e segue em direção à lanchonete. Eu o sigo com os olhos. Vejo que ele repousa a carteira em algum canto por trás do balcão e retorna ao trabalho. Terá ele a intenção de aguardar que a dona procure sua carteira? Será esse o seu desejo? Irá ele entregar a carteira a algum departamento de achados e perdidos? Ou quem sabe ele está ansioso para abrir a carteira e encontrar um bom trocado ali? Ai, que feio esse meu pensamento! Mas existem tantas pessoas feias, não é?
Continuo a acompanhar a movimentação do local. Casais enamorados, filhos mergulhados no  mundo virtual dos smartfones, executivos em ternos de trabalho, turistas de bermudas... Meus olhos enfim esbarram na tabela de voos e constato que meu embarque é imediato. 
Saio de cena e sigo rumo à Ilha da Magia.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Feliz Criança Todo Dia


Em comemoração ao dia das crianças, as redes sociais estão repletas de fotos dos seus usuários quando menininhos e menininhas. Que delícia ver imagens de pessoas que conhecemos desde aquela época distante! Que prazer conhecer agora a criança que o amigo mais recente era! O que curto é mergulhar em cada imagem e verificar o que se preservou da criança no adulto. Pode ser o olhar, a covinha no rosto...  seja o que for, alguma coisa ficou.
Adoro buscar na pele que se modificou, a expressão que se manteve ou nos dentes que estão diferentes, o sorriso que não mudou. Fico imaginando o que mais de cada criança reside no adulto que vejo agora e como cada adulto vê o que não mais existe daquela criança.  Qual será o sentimento de cada um ao ver-se na foto postada para o mundo? Saudade? Alegria? Melancolia?

Penso no ser criança e sua satisfação em simplesmente ser: autêntica, alegre, criativa. Qual criança não dá um abraço apertado sem medo da entrega? Não dá risada do que parece não ter graça? Não faz de qualquer pequena coisa um brinquedo? Olho o meu retrato e reconheço ali meus olhos curiosos, profundos, querendo ganhar o mundo. Guardo lá de trás a criatividade e procuro exercitar hoje mais espontaneidade. Sim, muito ainda da minha criança reside em mim e do que não mais existe quero resgatar a crença de que tudo é possível.
Nessa semana em que brincamos de mostrar ao mundo a nossa criança, bem que poderíamos reviver algumas brincadeiras. Que tal um pique-pega em que ao ser tocado você faz uma coisa engraçada, infantil? E para entrar no jogo, basta sentir-se tocado. Daí o inusitado pode ser fazer uma careta na rua ou cantar no ônibus... qualquer coisa que faça você e o outro rir.

A propósito do Dia das Crianças, desejo a elas que carreguem consigo a ludicidade pela vida adulta. E aos adultos, que façam brincar a criança que guardam dentro de si. A todos, feliz criança todo dia!

domingo, 6 de outubro de 2013

Liverpool para sempre


Qualquer destino de viagem é sempre muito bem-vindo. E em se tratando de cidade em país de língua inglesa, meu interesse é ainda maior, pois o contato com a cultura do povo enriquece não somente minha bagagem pessoal, mas também profissional. Porém, admito que visitar Liverpool  nunca esteve exatamente nos meus planos. Eu não tinha muito conhecimento sobre a cidade e nunca fui uma beatlemaníaca, para quem, por razões óbvias, faria todo o sentido deslocar-se para o noroeste da Grã-Bretanha.
Eis, entretanto, que em abril de 2013 a oportunidade surgiu: uma conferência de cinco dias em Liverpool. Tempo suficiente para preencher as malas da memória com novas experiências, e as malas do quarto com alguns souvenirs. Entre palestras e workshops, abre-se sempre espaço para um passeio ao shopping center, uma caminhada pela cidade e um tour pelos pontos principais. Com certeza isso ajuda a relaxar a mente tão focada em assuntos técnicos e, assim, prepará-la para um novo dia de trabalho. Afinal, ninguém é de ferro!
A ida ao shopping aconteceu em um final de tarde, quando eu e minha colega de trabalho fomos ao Liverpool ONE. Para nossa alegria, nos deparamos com um extenso centro comercial a céu aberto, que não imaginávamos pudesse ser tão completo. Mas para tristeza nossa,  já era perto das oito da noite, horário de fechamento das lojas. Exceto uma peça de roupa de boa marca a preço módico, o que adquiri foi o gostinho de imaginar quanta coisa poderia ter levado para casa se tivesse tido mais tempo.  Havia bons descontos em roupas de inverno, por exemplo, uma vez que a estação seguinte já chegara.
 Quanto a caminhar pela cidade, meu exercício foi o percurso diário do hotel para o centro de convenções e vice-versa. Nas manhãs frias e cinzentas de uma primavera atípica, eu andava apressadamente por Albert Dock, contra o vento que soprava do Rio Mersey. No final do dia, fazia o caminho oposto, em temperaturas ainda baixas, porém sob um céu de nuvens douradas. Com passos ligeiros e olhos comprimidos sob o capuz do casaco, admirava a beleza da zona portuária, contemplando o importante patrimônio mundial.
Entre os vários restaurantes e lojas ao longo das docas, estava a Beatles Story, com bonés, T-shirts, livros, CD's e tantos outros artigos dos 'Fab Four'.  E próximo dali, o local onde comprei meu ingresso para um tour de mistério e magia - o Magical Mystery Tour - um passeio em ônibus no modelo do veículo do filme homônimo, ao som dos Beatles, por locais relacionados à vida e obra dos meninos de Liverpool. Não sou uma amante inveterada dos Beatles, como disse, mas esse passeio me despertou reflexões mágicas.
À medida que o ônibus passava por pontos de referência dos integrantes do grupo, o guia dava explicações, como em qualquer passeio turístico, embora aquele não fosse um passeio qualquer. Em alguns dos pontos, o ônibus parava e saltávamos todos para fotos e contato mais próximo com as referências. Assim foi em Penny Lane, onde fiz o registro fotográfico da placa com o nome da via imortalizada por McCartney. Assim foi em Strawberry Field, onde também fotografei o portão vermelho do antigo orfanato do Exército da Salvação em que Lennon brincava durante sua infância. E assim foi na casa de número 20, em Forthlin Road, onde Paul morou durante a adolescência e vivenciou a partida da mãe pouco antes da chegada do sucesso. Essas três paradas trouxeram-me pensamentos e sensações muito inesperados.
Pensei no lirismo com que o cotidiano de Penny Lane foi retratado na canção, como pessoas que param para cumprimentar o barbeiro ou o bombeiro que estranhamente foge da chuva. O dia-a-dia de pessoas comuns sob o olhar sensível de quem parou para observar o mundo ao seu redor. Pensei em como cada um de nós poderia imortalizar a rua em que vivemos, o bairro em que moramos ou os lugares que frequentamos, simplesmente através do olhar atento e presente, tantas vezes negligenciado pela insensibilidade da pressa urbana. Não falo em tornarmos nossos arredores conhecidos mundo afora, como fizeram os meninos de Liverpool, mas em valorizá-los mundo adentro.Como é possível tornar tanta coisa simples imortal! Basta parar, estar presente e sentir.
Quanto a Strawberry Field, todos certamente tivemos os nossos campos de morango na infância. O doce lugar, a doce pessoa ou situação que nos acalentava diante das dificuldades. Retornar à doçura do passado nos momentos amargos da vida nos faz resgatar forças para superar obstáculos. A fonte de inspiração de Lennon nos lembra onde podemos buscar nossas motivações mais íntimas para seguirmos adiante.
A casa de Paul me fez refletir sobre a vida, sempre imprevisível. Ao mudar-se para a casa de tijolos vermelhos, o menino não imaginava as mudanças que sofreria o seu destino. Não poderia supor seu teto desabando, com a perda da mãe, nem a casa se reerguendo, com o crescimento da sua música. Mas assim é a vida: morada sem paredes, portas por abrir e chão e teto que se refazem, mesmo quando parecem desmoronar. É preciso acreditar na vida!

Ao final do passeio, a magia estava concluída e meu ticket to ride havia me rendido muito mais do que as duas horas corridas no relógio. O que fiz não foi simplesmente um tour temático. Fiz uma viagem através do universo, meu universo particular.
 Eu, que não tinha tanto interesse por Liverpool, jamais poderia imaginar os ensinamentos que ali me aguardavam. Aprendi bastante sobre a cidade, suas características e peculiaridades. Aprofundei conhecimento a respeito da banda mais popular do mundo. E, o mais fantástico: às lições que vieram de fora, somei aprendizados que brotaram de dentro.
O que posso dizer de Liverpool agora é que essa experiência ficou nos meus ouvidos e nos meus olhos, bem ao estilo da imortal Penny Lane. Ou ainda, ao estilo de Strawberry Field, eu diria: 'Liverpool para sempre'.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Cartão de Aniversário

O que você escreveria para o seu amor em seu aniversário de relacionamento?

Namoro ou casamento, não importa o status da relação. Importa sim a paixão, o carinho, o querer bem. A vontade de chamar ‘meu bem’ e recostar a cabeça no ombro. Saber que pode contar, que não há do que duvidar, que é possível sorrir e chorar.
 
Não importa morar junto ou separado. Importa é tê-lo sempre ao lado, para ouvir e falar, dividir e contar como foi o seu dia, o que lhe trouxe tristeza ou alegria.

Gostos semelhantes ou distintos, pouca diferença faz a opinião. Difere sim é o respeito pelo ‘não’, o companheirismo e a compreensão.
 
Uma dose de ciúme instiga o sentimento. Mas ciúme em excesso traz ressaca e dor de cabeça. O que vale é combater a embriaguês da insegurança. E acreditar no gesto que só você conhece, nas palavras que só você entende e no olhar que só você traduz.
 
Revirar o passado, só se for por coisas boas. Lembrança dos dois à toa, encantados um com o outro. Relembrar momentos, só dos dois juntos, pois não importa o mundo antes desse encontro.
 
Projetos para o futuro alimentam a relação. Mas é no presente que se entrega o coração. E sem coração presente não há semente que vingue.
 
No dia do seu aniversário de relacionamento, brinde! E escreva sobre o que realmente importa, faz diferença e vale a pena entre vocês. Citando o poetinha, deseje que seja infinito enquanto dure o seu amor. E sendo o amor verdadeiro, que ele dure por toda a vida!

domingo, 29 de setembro de 2013

Meu Bem


Foi a milhas de distância do Rio de Janeiro que tomei conhecimento de Beatriz Milhazes, seu nome e sua obra. Em uma exposição no Museu de Arte Latinoamericano de Buenos Aires em 2012, as cores vivas dessa grande artista plástica exaltaram em terras portenhas meu orgulho de ser carioca, conterrânea de Beatriz. A intensidade, a alegria e o dinamismo de suas telas refletem o estado de espírito que nós, cidadãos tropicais, conhecemos tão bem. Não há como sentir-se indiferente aos círculos, listras e estrias vibrantes que parecem saltar das telas em direção aos nossos olhos, hipnotizando nossa mente.
A rendição ao mundo de cores de Beatriz nas salas do MALBA transportou-me no tempo e espaço. Por instantes, voltei à década de 70 e avistei, no centro do Rio de Janeiro, a sala do pequeno apartamento da minha avó. Ali estava eu, pernas e shorts curtos, rabiscando com gizes coloridos um quadro negro de brinquedo. Havia também muitos lápis de cor espalhados sobre o mármore branco da mesinha de centro. E ainda tinta-nanquim cobrindo por inteiro uma folha de papel úmida, que ao secar seria cuidadosamente riscada com alfinete para revelar traços do colorido escondido por baixo da tinha. Nas tardes daquele tempo, enquanto minha mãe trabalhava fora, era na casa da avó que a criança nada arteira e um tanto artística soltava a sua imaginação e libertava em cores o seu mundo secreto. Incrível como poucos minutos diante de uma tela me fizeram a memória regressar tantos anos. Mas é justamente esse o poder da arte: tocar a atemporalidade da alma e nos fazer viajar sem sair do lugar.

 No dia 8 de setembro de 2013, minha alma novamente inquietou-se com a obra de Beatriz, dessa vez em nossa terra natal.  Não poderia haver melhor escolha de lugar para abrigar Meu Bem, uma mostra artística de tamanha vibração, que uma construção cheia de simbolismos de liberdade. Centro das movimentações históricas da abolição da escravatura e proclamação da república do Brasil, o Paço Imperial veio alojar a moderna movimentação de cores que alforriam a mente das formas estáticas e previsíveis.
Logo no início da exposição surge o impacto de um gigantesco móbile com flores, miçangas, espelhos, brilho, transparência e cor. De imediato, invade minha mente a imagem coletiva do carnaval carioca e seus carros alegóricos. Não imediatamente, assaltam-me os sentidos lembranças particulares dos meus carnavais passados. Eu, que tinha o sonho adolescente de desfilar em uma grande escola de samba, não poderia imaginar meu desejo tornando-se real por tantos carnavais. Durante os quinze minutos em que apreciei a peça, revivi meus quinze anos de desfile na Marquês de Sapucaí. Meu corpo e espírito fundiram-se em alegria no Paço Imperial, minha alma sorrindo diante de cada enfeite pendente que lembrava os adereços e alas do querido Salgueiro na avenida.

Feliz começo de exposição, boas lembranças, belas fantasias. E assim seguiu meu passeio de domingo pelas salas do velho edifício colonial. Próxima descoberta: imagens coloridas em recortes de papel. Deparei-me então com o trabalho de colagem, que não tivera a oportunidade de conhecer na Argentina. Maior proximidade das obras revelou-me uma surpresa: as imagens eram bem familiares. Um olhar mais cuidadoso evidenciou o inesperado: papéis de bala e embalagens de bombons, sobrepostos, ora levemente escondidos, ora claramente expostos.
E brilhou naquele momento o olhar da minha criança curiosa, gulosa, encantada, buscando no bolso do paletó do pai os chocolates que ele trazia na volta do trabalho. Os papéis de bombom eram doces pedacinhos de lembranças que se desembrulhavam em minha mente. Eis a arte brincando com o tempo.

A brincadeira seguiu pelas colagens de recortes de sacolas de lojas. Ali minha menina se fez mulher, seduzida pelo mundo da moda e da beleza. Nomes de lojas internacionais me levaram a locais que conheci e a outros que ainda visitarei. Novamente a arte a serviço do atemporal; presente, passado e futuro fundidos no mesmo instante.
Saí da exposição levando o seu colorido em meus olhos e suas formas em minha mente, como um caleidoscópio de arabescos. Senti-me leve, alegre, pulsante. Através das pinturas, gravuras e colagens passeei por minha meninice, adolescência e maturidade, ziguezagueando através do tempo. A viagem lúdica pelo mundo de Beatriz levou-me ao encontro do meu maior bem: a minha história. Coisas que a arte bem sabe fazer!

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Dezessete


No último dia dezessete, estive presente em um evento do qual há algum tempo não participava: um casamento. Fazia cerca de um ano que eu não presenciava uma festividade como a daquela noite: tradicional comunhão na igreja e linda festa de celebração. Pergunto-me por que vou a poucos casamentos hoje em dia. Talvez as pessoas estejam unindo-se de maneira formal com menos frequência do que antes, talvez os amigos do meu convívio não mais se casem – mas descasem, ou talvez receber poucos convites de casamento seja mera casualidade momentânea. Quem sabe nos próximos meses eu não estarei novamente tentando conter as lágrimas emocionadas frente aos noivos e demais convidados para não desmanchar a maquiagem de festa?
Casamentos sempre me comovem. Qualquer que seja a religião ou o formato da união, não há como manter-me impassível diante do sincero desejo de compartilhamento da vida e da fé na conjunção de corpos e almas. É essa a meta comum de dois seres ao casarem-se verdadeiramente: percorrerem juntos a estrada da vida, confiando na orientação que um dará ao outro quando surgirem pelo caminho sinalizações enganosas. E no momento da união, formalizada civil, religiosa ou simbolicamente a dois, o que importa é a genuína entrega de si e a convicção de que tudo vai dar certo.

A felicidade dos noivos era contagiante. Os olhos dela expressavam a alegria e confiança que tivera aos dezessete anos, quando conheceu o pai dos seus dois filhos, embora com o tempo tivesse perdido esses sentimentos e acreditasse que não fosse possível resgatá-los. Os olhos dele expressavam a crença na vida a dois, que conheceria agora pela primeira vez.

Muitos padrinhos e madrinhas testemunharam a felicidade do casal. Entre eles uma mulher de meia-idade e dois homens de idades distintas e grande importância na vida da noiva. O homem mais velho, pai do seu primeiro marido, foi aquele que a apoiou na criação dos filhos, juntamente com sua esposa, que o acompanhava como madrinha. O homem mais jovem, seu primeiro filho, foi quem a fez conhecer, quando ainda bem moça, o significado da maternidade.
Para a chegada das alianças, percorreram o corredor central da igreja duas mulheres baixinhas, uma com avançada idade, outra ainda na puberdade. Avó e filha da noiva entregaram ao casal o símbolo da nova união. Naquele momento, a emoção teimava em molhar os olhos de quem estava presente. No altar, membros de uma antiga família e de uma nova família integravam-se em um só grupamento familiar movido pelo sublime sentimento do amor.

Foi nesse instante, que minha mente desligou-se do presente e transpôs-se para o passado. Lembrei-me de quando, há dezessete anos, nascia o filho da primeira união da noiva. Não sabia ela que quatro anos mais tarde seria mãe novamente, então de uma menina. Não poderia ela supor que ambos, filho e filha, iriam prestigiá-la um dia por uma união que não fosse com o pai das crianças. Não poderiam seus sogros supor que seriam padrinhos de um novo casamento seu. Não poderia eu supor que participaria desse acontecimento, muito menos acompanhada de um parceiro diferente do meu marido.
Dezessete anos. Quanta coisa muda! Amigos, companheiros, família, trabalho, interesses pessoais. Como era a minha vida há anos atrás? Podia eu imaginar as mudanças que iriam ocorrer? Pude eu planejar tudo o que aconteceu?  Sou hoje a mesma pessoa de antes?

Sem dúvida, não sou quem fui há dezessete anos. Sequer sou a mesma de dezessete meses ou dezessete dias atrás. A mudança, lenta e contínua, é inerente à vida, que avança sem que se possa perceber. Um belo dia, como num piscar de olhos, constatamos que tudo mudou. E aí damos conta que aquilo que parecia o fim do mundo já não é tão difícil assim. A dor da perda serenou na saudade. E o fim do relacionamento possibilitou o surgimento de uma nova paixão.
Momento do beijo dos noivos. Meu pensamento retornou ao presente carregado de alegria. É sempre bom constatar o caminhar da vida. E entender que planejar é bom, mas receber as surpresas inesperadas que a vida nos apresenta é muito melhor. Como estaremos nós daqui a dezessete anos, só mesmo vivendo para saber. Mas a fé no que virá com certeza ajuda a tornar essa estrada mais prazerosa de se percorrer. Meus votos aos noivos são de uma vida repleta de boas surpresas. E que eles comemorem cada dia dezessete com o mesmo brilho no olhar daquela noite de agosto de 2013.

quarta-feira, 8 de maio de 2013

E se passaram dezoito anos!



08 de maio de 1995. Tudo era muito novo - para mim e para você. Eu, iniciando uma experiência inédita na vida. E você iniciando a sua própria vida. Alegria, ansiedade, expectativa. E também receios, dúvidas, inseguranças. Porém, sempre a minha certeza do sentimento maior, soberano e onipresente: o amor. 
Numa chuvosa noite de segunda-feira, seus pequenos olhos negros abriram-se para o mundo e seu choro cessou no meu peito. Iniciamos ali uma história de cumplicidade, carinho e bem-querer. Uma história da qual passaram a participar pai, avós, padrinhos, tios, tias, primos e amigos. 
A chegada à nossa casa foi cercada de cuidados. Mãe sem experiência que era, eu temia que  som, luz ou muitas pessoas pudessem perturbar aquele frágil ser. Com o tempo, aprendi que os bebês não são tão indefesos assim. Eles têm os seus mecanismos de proteção e sua personalidade própria. E você desde muito cedo demonstrou gostar da casa cheia!
Após alguns meses de vida, apareceram os primeiros amiguinhos: dois bebês moradores do pequeno prédio de Vila Isabel. Você se lembra? E na sala do apartamento, sobre o tapete colorido  de borracha, arrastavam-se os corpinhos na ânsia de ganhar o mundo. Aos poucos, você passou a levantar-se e apoiar os bracinhos no sofá, até que seus primeiros passos se deram. Também as primeiras frases se emitiram e você começou a comunicar-se com mais clareza. Fazia discursos completos, ora em português, ora em 'mayarês', sua língua própria que tanto nos encantava.
E chegou a primeira escola. Chegaram os novos amigos, as professoras e as descobertas de um mundo maior. Surgiram os primeiros desafios.
Mudamos para um apartamento mais amplo. E nas varandas da Tijuca, você viveu novas experiências. No novo bairro, você passou a frequentar uma outra escola e expandiu o seu conhecimento de mundo. Experimentou ser bailarina, nadadora, desenhista e flautista. Fez amizades que permaneceram e amizades que se foram. Aflorou a sua criatividade em desenhos, que eram minuciosamente traçados e pintados em vivas cores. Desenvolveu sua imaginação em histórias que criou e poemas que escreveu. Exercitou sua sensibilidade no amor que dedicou aos seus animaizinhos de estimação - os dois hamsters fêmeas. Explorou seu humor em  personagens  e performances cômicas que desenvolveu, nos fazendo gargalhar nos almoços de família, quando a professora siliconada se apresentava  para seus alunos.
Ocorreu uma nova mudança de apartamento. Dessa vez causada pela alteração na estrutura  do núcleo familiar. Pai e mãe separados de corpos, porém unidos permanentemente  no amor por você. Chegou a pequena Yorkshire para integrar-se à família.
Iniciou-se o ensino médio e diferentes amizades surgiram. Muitos professores. Estudos ampliados. Novidades.  A infância foi sendo deixada para trás e a adolescência começou a despontar. As transformações no corpo, as inseguranças, os interesses diversos. A descoberta do teatro e a vontade de ser atriz. Sua personalidade se definindo: a indignação com as injustiças, a lealdade com os amigos, a compaixão pelos animais, a vaidade feminina, o controle do dinheiro e o gosto pelos prazeres da vida. Com a proximidade da conclusão dos estudos, a angústia da escolha de uma profissão. Até a decisão se concretizar.
No início deste ano, abriu-se uma gigantesca porta em sua vida: a universidade. Sonhos, desapontos, muitas coisas acontecendo e tantas outras por vir. Nossa, o tempo passou! 
Modificações ocorreram. Pessoas queridas partiram e outras chegaram. É, minha filha, assim é a vida: movimento constante, evolução incessante. E se passaram dezoito anos! 
Hoje é dia de agradecimentos: a Deus, por fazer de você minha filha; à vida, por nos manter unidas até agora e a você, pelo ser humano que é. Hoje é dia de votos: que você descubra as suas verdades, que trace o caminho da sua felicidade, que se realize pessoal e profissionalmente. Hoje é dia de gritar bem alto: FELIZ ANIVERSÁRIO! E lembrar a você, moça Mayara, que para sempre eu vou te amar! 


quarta-feira, 20 de março de 2013

Feliz Aniversário!


Hoje é dia do meu aniversário. É o dia em que, quando criança, eu dormia à tarde para fazer o tempo passar mais rápido até que chegasse a minha festa de comemoração à noite. É o dia em que, quando adolescente, confiança e insegurança internas combatiam-se a todo instante, a segunda vencida pela primeira a cada parabéns recebido e, com isso, a certeza de que eu era lembrada e aceita.
Passados quarenta e seis anos, muita coisa mudou em relação à data do meu aniversário. Não mais adianto o relógio, ansiando pelo melhor do dia. Tampouco temo a exposição ou a não-aceitação. Quero viver este dia de olhos bem abertos. Quero enfrentar meus fantasmas verdadeiramente, sem camuflar sentimentos.

Hoje é dia de refletir sobre as conquistas, o amadurecimento e o progresso que a vida vem me proporcionando. É dia de reconhecer os agentes de dentro e de fora que se combinam e criam um amálgama de influências traduzidas em quem eu sou.
 Hoje é dia de valorizar a minha força interna, mantenedora do meu solo firme mesmo em períodos de tempestade. É dia de permitir fluir a minha religiosidade e acreditar na minha intuição. É dia de ousar. Usar o dia. Ousadia.

 Hoje é dia de coroar os familiares presentes e ausentes, por deixarem todos as suas marcas em mim, presenteando-me com seus melhores modelos de vida. A avó persistente, a avó faceira, o avô organizado, a mãe conselheira, o pai carinhoso, o tio moleque, o tio musical. A irmã única, em quantidade e valor. O parceiro companheiro que foi. O parceiro companheiro que é. A filha sensível e solidária. Uma família pequena, cuja união resistiu ao rompimento dos matrimônios. Pais, mães e filhas separados de corpos, porém unidos em alma.
 Hoje é dia de agradecer os amigos de outrora e de agora. Amigos da infância, amigos do colégio, amigos da faculdade, amigos do trabalho, amigos do canto, amigos da família, amigos de fé, amigos de mesa de bar. O amigo que nasceu formal e cresceu tão cúmplice. O amigo que mudou de cidade. As amigas que mudaram de país. A amiga da amiga, que tornou-se mais confidente do que a amiga em comum. Amigos de muitos anos. Amigos de poucos meses.

 Hoje é dia de reunir o bom de fora e o bom de dentro, valorizar cada momento, cada afeto e gesto de delicadeza. É dia de celebrar o meu nascimento!
É dia de reconhecer que o estado de felicidade requer muito menos do que prega a sociedade de consumo. A felicidade é construída pelo bem-querer e bem-ser-querido. Hoje, na maturidade da minha vida, sinto-me segura em admitir o tanto que quero bem a tanta gente e o tanto que sou benquista por tantas pessoas. Neste dia de aniversário, sinto aproximar-se a leveza que venho perseguindo há muito tempo. Sinto mais perto o cheiro da liberdade que venho buscando. Sinto uma expansão de horizontes que eu não supunha existir. Sinto alegria. Sinto prosperidade.

Hoje é um dia muito feliz. Sem dúvida, um feliz aniversário!

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Buenos Aires: O Melhor da Festa

Dizem que o melhor da festa é esperar por ela. E que o planejamento de uma viagem faz parte do prazer de viajar. Ou seja, as boas expectativas de um acontecimento nos despertam sensações antecipadas de gozo e euforia. Talvez seja isso um mecanismo inconsciente de defesa contra a frustração que se instala quando nem tudo acontece conforme o previsto. Se as felizes expectativas de uma festa ou viagem não se cumprirem, a simples espera pela chegada do evento já terá feito o acontecimento valer a pena.
 Mas, e quando não há expectativas? E quando os mecanismos de defesa não são precocemente acionados? Bem, aí estão as verdadeiras oportunidades de usufruir por inteiro das delícias da festa e do sabor da viagem. Sem pre-ocupações ou pre-julgamentos, mente e corpo se ocupam do momento presente, e nos permitem julgar o que realmente é, e não o que supomos ser. Assim foi a minha visita a Buenos Aires: sem expectativas, sem pre-ocupações, sem pre-julgamentos. E exatamente por isso tão maravilhosa.
 Embora próxima do Rio de Janeiro, a cidade portenha sempre foi distante dos meus anseios. Não considerava a ida a Buenos Aires uma viagem ao exterior, já que não se tratava de Estados Unidos ou Europa. Tampouco era uma viagem nacional, obviamente. Então Buenos Aires simplesmente não era. Declaração envergonhada e pensamento tupiniquim, confesso. Mas a verdade é que meus olhos sempre se voltaram para a América do Norte e para o Velho Continente - até outubro deste ano.
 Foi Calí quem deu a sugestão. Em agosto, ele veio com a ideia de irmos a Buenos Aires dali a dois meses, quando teríamos alguns dias de férias. Aceitei o palpite. E os preparativos foram meramente comprar passagens e reservar o hotel - o mínimo a ser feito. É bem verdade que busquei algumas informações e recebi dicas de amigos que já conheciam a cidade, mas em momento algum senti o friozinho na barriga típico da ansiedade pre-viagem-tão-esperada. Estava feliz com a escolha, mas sem expectativas. E disso decorreu o melhor da festa: a viagem em si.
 Após a chegada ao aeroporto de Ezeiza, quando a caminho do nosso hotel em Recoleta, passamos pelo centro da cidade. E naquele momento tive o primeiro impacto, ao percorrer a Avenida 9 de Julio. Uma avenida com tamanha amplitude não poderia pertencer a qualquer cidade. São doze pistas em cento e quarenta metros de largura e muitos quilômetros de extensão. E verde, muito verde entremeando o cinza dos quarteirões. 'Verde que te quiero verde', aliás, caberia bem como slogan da cidade. As numerosas praças são arborizadas, agradáveis e reúnem muita gente exposta aos bons ares à procura de bem-estar físico e espiritual, em suas roupas de ginástica ou com livros em punho. Reúnem-se também muitos cães, em bandos, cujas coleiras convergem para as mãos de um único passeador.
 O que falar da arquitetura? Eu sabia que a influência parisiense era bastante presente. Só não poderia supor que por tantas vezes olharia uma esquina e imaginaria estar na Boulevard Saint-Michel, com seus telhadinhos peculiares. Não poderia imaginar a riqueza arquitetônica do Teatro Colón ou o esplendor da livraria El Ateneo.
 E quanto à gastronomia? Quem bem me conhece sabe que não sou grande apreciadora de carne vermelha. Mas como resistir ao 'ojo de bife', principalmente quando acompanhado de um Altos Las Hormigas Malbec e precedido por um covert de 'tomates desecados, morrones braseados, muzzarela, mantequilla y variedad de panes caseros'? Somado ao apuro do paladar, o requinte da vista para águas vindas do Rio da Prata e o aroma amadeirado de ervas no ar. Ambientação perfeita para um brinde aos sete anos de namoro que celebramos no início do mês.
 A riqueza cultural da cidade também me impressionou. Com tantos museus à disposição, foi preciso optar. E a escolha se deu por uma questão nacionalista: apreciar de perto a mais valorizada tela brasileira no mundo, referência à antropofagia modernista em deglutir a cultura estrangeira: Abaporu. Foi emocionante ver o mais importante quadro de Tarsila ao vivo! Motivo suficientemente justo para a opção pelo MALBA, ainda que outros artistas expostos no Museu de Arte Latinoamericano mereçam o nosso respeito. Encantei-me com o realismo das telas de Antonio Berni, por exemplo!
 Como falar da cultura argentina sem mencionar esse que é considerado patrimônio cultural da humanidade? Lindo, poético, dramático, o tango nos emocionou na apresentação do quinteto que ouvimos acompanhar cantores e dançarinos no Café de Los Angelitos. Gardel, Piazzola e outros menos conhecidos por nós aqueceram nossas almas de emoção naquela noite.
 Foi essa então a minha experiência em Buenos Aires. Sem expectativas, sem a ansiedade da espera, sem a antecipação de sensações, a cidade chegou de mansinho e se apropriou de mim. Tornou-se um destino precioso que me possibilitou viver com intensidade cada momento. Un gran regalo. A comprovação de que o melhor da festa deve ser sempre a festa em si. Hasta la vista, mi Buenos Aires querido!