No dia de hoje, subo na gangorra narcísica e levo o meu ego às alturas. Deixo de lado a modéstia, a insegurança, a vergonha, e ergo uma taça a mim mesma. Uma taça de vinho. Uma taça do título. A taça da vida! Sim, hoje eu posso. Hoje é o dia internacional da mulher e o meu brinde é a mim mesma, única e especial que sou no mundo.
O instante do meu nascimento registrou a força do meu sexo. Às 23 horas do dia 20 de março de 1967, cheguei rompendo a expectativa do menino aguardado na sala de espera. A revelação se fez através da ênfase no gênero do adjetivo: “Linda! Ela é linda!” – foram as palavras da enfermeira que levou embora a esperança de meu pai em compartilhar com um sucessor os segredos do mundo masculino. Não tinha jeito: ela era linda e iria crescer mulher.
O tanto de decepção do seu Albano foi esquecido ao longo dos anos. A menina mostrou-se carinhosa, imaginativa, sensível, companheira. Ela queria ser forte. E era esperta o suficiente para esconder de si mesma sua emotividade abundante, o que demonstraria fraqueza. Por isso, seus medos eram só seus, suas dores eram sentidas em solidão e suas inseguranças eram encobertas pelo comportamento exemplar. Que anjo de criança!
Era protegida contra os perigos da vida. A querida avó, com quem passava a maior parte dos dias, sequer permitia seu acesso à cozinha da casa, local de risco para uma menina pequena.
Mas, sem que ninguém soubesse, ela observava a chaleira no fogão e sabia que o leite fervente poderia transbordar. Então, escondendo-se de todos, corria para tampar a chaleira, na tentativa de manter o leite contido. Ela desconhecia que o mecanismo não era aquele, e que não adiantaria evitar o transbordar do leite, tamanha era a intensidade da ebulição.
Foi com o tempo que as verdades surgiram. A menina se transformou em mulher e teve a sua própria casa. Custou a aprender a lidar com a chaleira de leite no fogão e sofreu algumas queimaduras. Mas finalmente entendeu que é inútil lutar contra as forças da natureza. Se o fogo é intenso, o leite transborda. Assim, ela aprendeu a chorar e fazer jorrar suas emoções, medos, dores e incertezas. Ela se tornou mais leve. Permitiu-se fragilidade, sem vergonha. O anjo perdeu as asas e soltou os seus demônios.
Outrora avessa à comemoração de um dia destinado à mulher, hoje brindo este dia. Pouco importa se já pensei que essa data reforça um conceito machista. Por que é mesmo que não existe o dia internacional do homem? Pouco importa. Hoje penso que se existe o dia internacional da mulher, vou sim aceitar a homenagem. E apresentar-me ao mundo. Muito prazer: sou forte e frágil, sensível e insensível, doce e amarga, medrosa e destemida, tímida e sem-vergonha, modesta e vaidosa, laboriosa e preguiçosa, certa e errada. Sou mulher.
Um brinde a mim mesma! E agora um brinde a todas as mulheres! Que cada uma de nós seja hoje a primeira pessoa a levantar uma taça em homenagem a si própria - única e especial que cada uma é.
quinta-feira, 8 de março de 2012
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Quarta-Feira de Cinzas
Ao longo dos últimos quatro dias, pensei várias vezes em escrever uma crônica de carnaval. Ideias vieram e se foram, sem nenhuma vingar. Pensei em escrever sobre a paixão que sempre tive pelo Carnaval e como esse amor de infância surgiu.
Não sei exatamente quando e nem por que meu interesse pelo samba começou. Só lembro uma vontade louca de aprender a sambar ainda bem novinha. Com os meus doze anos, eu sambava com um pé só e sabia que não sabia sambar. Foi passado o carnaval daquele ano, que consegui sambar com os dois pés. Lamento profundo por não mais poder exibir-me com pés de passista – naquele ano, pois tantos outros carnavais viriam pela frente! Matinês no Clube Imperial de São Cristóvão, bailes no Clube Municipal e pre-carnavalescos do Clube América iriam despertar em mim o desejo profundo de desfilar em uma escola de samba. Portela, a escola do coração, era o meu sonho de consumo! Por que a escola de Madureira, tão distante de mim? Não sei. Amor não se explica, simplesmente se deixa fluir. E foi deixando fluir meu amor ao samba, que o Salgueiro entrou na minha vida. A frequência constante aos ensaios da vermelho e branco me fizeram trair a azul e branco definitivamente.
Foram quinze anos de sábados sob tamborins, chocalhos, repiques, caixas e tudo mais que sempre arrepiou, literalmente, a multidão da quadra da Rua Silva Teles. Nos quatro dias passados, pensei em escrever sobre a emoção dos desfiles – cada vez como se fosse a primeira, os integrantes apaixonados que não mais estão conosco ou as histórias engraçadas que aconteceram em torno da avenida. A perda da lente de contato durante o desfile, a inexistência de banheiros em momentos de necessidade urgente e - a melhor de todas - a troca das camisas tamanhos G e P. Aquele episódio daria uma boa história!
Domingo de carnaval, dia do desfile oficial do Salgueiro. Nervosismo típico de um presidente de ala dedicado à escola e paciência típica de sua esposa - O que restaria a ela fazer? Desde a manhã do dia, a mesma ladainha de todos os anos: Vou sair cedo de casa e quem quiser que me acompanhe. Não posso atrasar para a concentração. Preciso receber os integrantes da ala. E blá, blá, blá. No início da tarde, experimento minha camisa para confirmar, com antecedência, que está tudo certo. Faz alguns anos que não saio mais de fantasia, cansada que estou dos resplendores e adereços. Agora saio como diretora da ala. Livre, leve e solta.
Ao experimentar a camisa, uma ingrata surpresa: tamanho gigantesco para o meu corpo pequeno! Pânico na tarde de carnaval. Trocaram o meu tamanho! Como vou desfilar assim? E eu não posso atrasar, se não blá, blá, blá. Socorro da tia daqui, socorro da mãe dali, e recebo ajuda para o acerto da minha camisa. Rapidamente ela está reduzida ao meu corpo. Ufa! Tudo pronto a tempo. Camisa adequada, passada e pendurada, aguardando o momento da partida para a avenida.
O horário se aproxima. Vou começar a me arrumar e quem quiser que me acompanhe. Não vou esperar por ninguém. Tenho compromisso. E blá, blá, blá. Eis que Roberto veste a camisa e emite um urro, um grito feroz de indignação. Corre minha mãe, corre minha tia, corro eu. O que será que aconteceu? E vemos Roberto no quarto, comprimido numa camisa que mal lhe permite mexer os braços. Minha mãe gélida, minha tia pálida e eu trêmula. A camisa que eu experimentei à tarde não era a minha. A camisa que foi apertada não era a minha. A camisa que teve o tamanho reduzido era a DELE! E como o presidente vai desfilar daquele jeito? Com o peito apertado e os braços tolidos, sem poder mover-se durante a evolução da ala? Equipe de resgate a postos, mãe e tia se movimentam rapidamente. Tesoura daqui, alfinete dali e minha mãe consegue abrir alguns dos pontos dados. O que havia sido alinhavado pode ser salvo, o que havia sido cortado, foi-se. Parcialmente justa, parcialmente solta, a camisa permite agora ao menos algum movimento de braços.
Hora da partida para a concentração. Conseguimos sair a tempo, apesar dos pesares. No metrô, eu com minha camisa no devido tamanho e minha mãe e minha tia, com suas devidas fantasias, nos sentamos afastadas do presidente com sua camisa torta. De longe, podemos percebê-lo falando sozinho, resmungando e retorcendo a camisa, na esperança de ajeitá-la. Na concentração, outros presidentes de ala reclamaram da costura mal-feita naquele ano. É cara, vacilaram na costura esse ano. Tá tudo mal acabado, esquisito. Olha a sua camisa! Toda desengonçada! E assim a responsabilidade sobre a camisa torta foi creditada às costureiras do barracão.
Foram muitas as histórias de carnaval. Dos bailes nas tardes de sábado e terça aos desfiles nas noites de domingo e segunda, muita coisa eu poderia contar. Mas, nestes quatro dias de carnaval, as ideias vieram e se foram, sem nenhuma vingar. Hoje, quarta-feira de cinzas, sento-me para organizar algumas lembranças no computador. E eis que surge este texto, ainda que tardio, uma crônica de carnaval.
Não sei exatamente quando e nem por que meu interesse pelo samba começou. Só lembro uma vontade louca de aprender a sambar ainda bem novinha. Com os meus doze anos, eu sambava com um pé só e sabia que não sabia sambar. Foi passado o carnaval daquele ano, que consegui sambar com os dois pés. Lamento profundo por não mais poder exibir-me com pés de passista – naquele ano, pois tantos outros carnavais viriam pela frente! Matinês no Clube Imperial de São Cristóvão, bailes no Clube Municipal e pre-carnavalescos do Clube América iriam despertar em mim o desejo profundo de desfilar em uma escola de samba. Portela, a escola do coração, era o meu sonho de consumo! Por que a escola de Madureira, tão distante de mim? Não sei. Amor não se explica, simplesmente se deixa fluir. E foi deixando fluir meu amor ao samba, que o Salgueiro entrou na minha vida. A frequência constante aos ensaios da vermelho e branco me fizeram trair a azul e branco definitivamente.
Foram quinze anos de sábados sob tamborins, chocalhos, repiques, caixas e tudo mais que sempre arrepiou, literalmente, a multidão da quadra da Rua Silva Teles. Nos quatro dias passados, pensei em escrever sobre a emoção dos desfiles – cada vez como se fosse a primeira, os integrantes apaixonados que não mais estão conosco ou as histórias engraçadas que aconteceram em torno da avenida. A perda da lente de contato durante o desfile, a inexistência de banheiros em momentos de necessidade urgente e - a melhor de todas - a troca das camisas tamanhos G e P. Aquele episódio daria uma boa história!
Domingo de carnaval, dia do desfile oficial do Salgueiro. Nervosismo típico de um presidente de ala dedicado à escola e paciência típica de sua esposa - O que restaria a ela fazer? Desde a manhã do dia, a mesma ladainha de todos os anos: Vou sair cedo de casa e quem quiser que me acompanhe. Não posso atrasar para a concentração. Preciso receber os integrantes da ala. E blá, blá, blá. No início da tarde, experimento minha camisa para confirmar, com antecedência, que está tudo certo. Faz alguns anos que não saio mais de fantasia, cansada que estou dos resplendores e adereços. Agora saio como diretora da ala. Livre, leve e solta.
Ao experimentar a camisa, uma ingrata surpresa: tamanho gigantesco para o meu corpo pequeno! Pânico na tarde de carnaval. Trocaram o meu tamanho! Como vou desfilar assim? E eu não posso atrasar, se não blá, blá, blá. Socorro da tia daqui, socorro da mãe dali, e recebo ajuda para o acerto da minha camisa. Rapidamente ela está reduzida ao meu corpo. Ufa! Tudo pronto a tempo. Camisa adequada, passada e pendurada, aguardando o momento da partida para a avenida.
O horário se aproxima. Vou começar a me arrumar e quem quiser que me acompanhe. Não vou esperar por ninguém. Tenho compromisso. E blá, blá, blá. Eis que Roberto veste a camisa e emite um urro, um grito feroz de indignação. Corre minha mãe, corre minha tia, corro eu. O que será que aconteceu? E vemos Roberto no quarto, comprimido numa camisa que mal lhe permite mexer os braços. Minha mãe gélida, minha tia pálida e eu trêmula. A camisa que eu experimentei à tarde não era a minha. A camisa que foi apertada não era a minha. A camisa que teve o tamanho reduzido era a DELE! E como o presidente vai desfilar daquele jeito? Com o peito apertado e os braços tolidos, sem poder mover-se durante a evolução da ala? Equipe de resgate a postos, mãe e tia se movimentam rapidamente. Tesoura daqui, alfinete dali e minha mãe consegue abrir alguns dos pontos dados. O que havia sido alinhavado pode ser salvo, o que havia sido cortado, foi-se. Parcialmente justa, parcialmente solta, a camisa permite agora ao menos algum movimento de braços.
Hora da partida para a concentração. Conseguimos sair a tempo, apesar dos pesares. No metrô, eu com minha camisa no devido tamanho e minha mãe e minha tia, com suas devidas fantasias, nos sentamos afastadas do presidente com sua camisa torta. De longe, podemos percebê-lo falando sozinho, resmungando e retorcendo a camisa, na esperança de ajeitá-la. Na concentração, outros presidentes de ala reclamaram da costura mal-feita naquele ano. É cara, vacilaram na costura esse ano. Tá tudo mal acabado, esquisito. Olha a sua camisa! Toda desengonçada! E assim a responsabilidade sobre a camisa torta foi creditada às costureiras do barracão.
Foram muitas as histórias de carnaval. Dos bailes nas tardes de sábado e terça aos desfiles nas noites de domingo e segunda, muita coisa eu poderia contar. Mas, nestes quatro dias de carnaval, as ideias vieram e se foram, sem nenhuma vingar. Hoje, quarta-feira de cinzas, sento-me para organizar algumas lembranças no computador. E eis que surge este texto, ainda que tardio, uma crônica de carnaval.
domingo, 29 de janeiro de 2012
Frágil
Noite de verão ameno e chuva fina. Garrafa de vinho como sempre na despensa, aguardando a companhia de um bom DVD. Uma busca na locadora me apresenta o filme até então desconhecido: Paris. Nada mal rever a cidade que tanto me encantou há um mês em minha viagem à Europa. Foi essa a motivação de levar para casa ontem o filme de Cedric Klapisch, estrelado por Juliette Binoche e outros excelentes atores franceses.
O filme em nada nos decepcionou em relação às expectativas de trazer lembranças tão vivas à memória. O passeio pela cidade de Paris é completo, fazendo quem conhece a cidade reviver sua magia e quem não a conhece, querer pegar o primeiro avião para lá, como bem diz a crítica na capa do DVD. A boa surpresa foi a história em si e como ela se apresenta. São diversas amostras das vidas de desconhecidos que de alguma forma se entrelaçam em torno de uma história central: um rapaz jovem que recebe de seu médico a notícia de que uma doença no coração irá roubar-lhe a vida em pouco tempo.
Embora possa parecer um tema piegas, não há pieguice no filme. Olha que eu sou uma manteiga derretida, daquelas que se controlam para não chorar copiosamente numa cena banal de reconciliação entre namorados apaixonados. Entretanto, em nenhum momento sequer um nó na garganta me surgiu. O filme é leve, agradável, flluido. E por isso mesmo faz pensar. Se fossem cenas sentimentaloides, a emoção exacerbada poderia encobrir um enredo aparentemente pouco original. Mas não é o caso. São retratos da vida de pessoas como eu e você. E, mais que isso, a estampa de quão frágil a vida é. A imprevisibilidade é destacada logo no início, com o resultado da ultrassonografia revelando o fim de quem se espera viver por muito tempo ainda. E não pára por aí. Uma situação inesperada envolvendo outra personagem ocorre, expondo mais uma vez o débil fio que nos anima.
É incrível que possamos aceitar, ainda com certa resistência, a idéia da morte consequente do tempo que deteriora e faz sucumbir. Sabemos que tudo que é matéria se desgasta e podemos prever o tempo da deterioração material. A madeira apodrece, o ferro enferruja, e os órgãos do corpo humano falem. O que nos recusamos a aceitar, entretanto, é que qualquer matéria é frágil o suficiente para ruir antes do tempo esperado. Um objeto de madeira pode ser infestado por cupim, estruturas de ferro podem ser prejudicadas pela maresia, e o coração pode ser acometido por uma doença irremediável. A fragilidade pode também se expor diante de uma intenção: o tronco de madeira ceifado, o ferro incendiado, o corpo esfaqueado. Por mais que se busquem os culpados pela devastação da floresta, pelo incêndio no prédio ou pelo assassinato da pessoa, a matéria está desfeita. E nada traz a vida de volta.
Muitas vezes creditamos à injustiça divina ou à irresponsabilidade humana a causa da perda da vida, pois precisamos de paliativos para acalentar nossos corações sufocados de dor. Mas, na verdade, buscamos razão para o irracional.
No filme de ontem, o jovem à espera da morte torna-se reflexivo sobre a sua vida e a dos outros, aproxima-se da irmã de quem se distanciara, conta para a namorada de infância o quanto ela foi importante e reúne amigos numa comemoração sem motivo especial. Enfim, diante da constatação premente do que nos recusamos a aceitar, ele parece adquirir consciência dos valores que realmente importam: os laços afetivos e a verdade consigo mesmo. Ele se recusa a iludir a si próprio, e admite por completo a realidade que todos nós queremos ocultar de nós mesmos.
Afinal, por mais difícil que seja, viver verdadeiramente é romper qualquer tipo de ilusão e encarar o maior medo que se tem na vida: o medo da morte.
O filme em nada nos decepcionou em relação às expectativas de trazer lembranças tão vivas à memória. O passeio pela cidade de Paris é completo, fazendo quem conhece a cidade reviver sua magia e quem não a conhece, querer pegar o primeiro avião para lá, como bem diz a crítica na capa do DVD. A boa surpresa foi a história em si e como ela se apresenta. São diversas amostras das vidas de desconhecidos que de alguma forma se entrelaçam em torno de uma história central: um rapaz jovem que recebe de seu médico a notícia de que uma doença no coração irá roubar-lhe a vida em pouco tempo.
Embora possa parecer um tema piegas, não há pieguice no filme. Olha que eu sou uma manteiga derretida, daquelas que se controlam para não chorar copiosamente numa cena banal de reconciliação entre namorados apaixonados. Entretanto, em nenhum momento sequer um nó na garganta me surgiu. O filme é leve, agradável, flluido. E por isso mesmo faz pensar. Se fossem cenas sentimentaloides, a emoção exacerbada poderia encobrir um enredo aparentemente pouco original. Mas não é o caso. São retratos da vida de pessoas como eu e você. E, mais que isso, a estampa de quão frágil a vida é. A imprevisibilidade é destacada logo no início, com o resultado da ultrassonografia revelando o fim de quem se espera viver por muito tempo ainda. E não pára por aí. Uma situação inesperada envolvendo outra personagem ocorre, expondo mais uma vez o débil fio que nos anima.
É incrível que possamos aceitar, ainda com certa resistência, a idéia da morte consequente do tempo que deteriora e faz sucumbir. Sabemos que tudo que é matéria se desgasta e podemos prever o tempo da deterioração material. A madeira apodrece, o ferro enferruja, e os órgãos do corpo humano falem. O que nos recusamos a aceitar, entretanto, é que qualquer matéria é frágil o suficiente para ruir antes do tempo esperado. Um objeto de madeira pode ser infestado por cupim, estruturas de ferro podem ser prejudicadas pela maresia, e o coração pode ser acometido por uma doença irremediável. A fragilidade pode também se expor diante de uma intenção: o tronco de madeira ceifado, o ferro incendiado, o corpo esfaqueado. Por mais que se busquem os culpados pela devastação da floresta, pelo incêndio no prédio ou pelo assassinato da pessoa, a matéria está desfeita. E nada traz a vida de volta.
Muitas vezes creditamos à injustiça divina ou à irresponsabilidade humana a causa da perda da vida, pois precisamos de paliativos para acalentar nossos corações sufocados de dor. Mas, na verdade, buscamos razão para o irracional.
No filme de ontem, o jovem à espera da morte torna-se reflexivo sobre a sua vida e a dos outros, aproxima-se da irmã de quem se distanciara, conta para a namorada de infância o quanto ela foi importante e reúne amigos numa comemoração sem motivo especial. Enfim, diante da constatação premente do que nos recusamos a aceitar, ele parece adquirir consciência dos valores que realmente importam: os laços afetivos e a verdade consigo mesmo. Ele se recusa a iludir a si próprio, e admite por completo a realidade que todos nós queremos ocultar de nós mesmos.
Afinal, por mais difícil que seja, viver verdadeiramente é romper qualquer tipo de ilusão e encarar o maior medo que se tem na vida: o medo da morte.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Goodbye, London!
A viagem do centro de Londres ao aeroporto de Heathrow costuma ser um tanto longa, não só pela distância como pelo volume de carros em determinados horários. Às onze da manhã de segunda-feira, no entanto, passada a hora do rush matinal, o trânsito flui bem, e o trajeto torna-se mais curto do que o usual.
Ao longo dos quarenta minutos do percurso, aprecio a sequência de imagens que me invadem os olhos e despeço-me da Inglaterra. Os alunos do nobre bairro de Holland Park, que por duas semanas vi seguirem para a escola nas manhãs frias e cinzentas, terminam as aulas do dia e seguem em grupos para casa. O sol bronzeia as árvores secas, dourando seus galhos despidos pelo frio. A tela azul do céu é pincelada de branco nos traços deixados pelos aviões. Os carros vindos pela direita, em direção contrária ao taxi que me conduz, já não me trazem a estranheza de semanas atrás.
Definitivamente, quinze dias não é tempo suficiente para se modificarem os hábitos de uma vida, mas certamente podem nos trazer mudanças, especialmente se vividos com intensidade. Assim foram os meus dias de passeio por Londres e arredores: longos, extensos, intensos. Foram muitos os assuntos dos eventos em solo inglês: história, arte, gastronomia, natureza, multiculturalismo. Cada um vivenciado com imenso prazer, lenta e profundamente. Ao pensar no dia de ontem, preciso parar para lembrar o que fiz. Confundem-se lugares na minha mente e sensações no meu corpo. Até que chegam imagens e impressões mais nítidas: penhascos esculpidos em giz branco, mar rajado de dourado, céu de azul irretocável, ampla área de gramado verde, vento gelado nas faces, vontade de correr com os pés no ar e voar, sensação de liberdade. Penso na imensidão da natureza, no poder das forças desconhecidas e na pequenez da condição humana. Lembrei-me, afinal: Ontem, a caminho da cidade de Brighton, visitei Seven Sisters, a incrível cadeia de sete penhascos ao sul da Inglaterra.
A soberania da natureza de Seven Sisters leva meu pensamento a Stonehenge, o inexplicável monumento de pedras de cinco mil anos de idade. Não se sabe por que as pedras foram dispostas em círculo, quem as colocou onde estão ou como foram transportadas. Novamente penso nos mistérios da vida e o diminuto tamanho do homem diante do universo. Quando foi mesmo que visitei Stonehenge?
Das belezas naturais, meu pensamento se desloca para as construções históricas. Lembro a Abadia de Westminster e suas paredes seculares, seus túmulos régios e seus memoriais de personalidades da história britânica. Penso no quão grandioso o homem pode ser para toda a humanidade, mas também como a história de cada um de nós, inevitavelmente, termina. Seja em túmulo banhado a ouro ou em túmulo algum, todos temos o mesmo fim. Qual foi mesmo o dia em que visitei a Abadia de Westminster?
À medida que o taxi se aproxima do aeroporto, um mosaico de imagens se forma em meu pensamento: Covent Garden, Tower Bridge, Borough Market, Tate Modern, Tower of London, British Museum, Portobello Road ... E um amálgama de sensações se apodera de mim: Surpresa, espanto, melancolia, saudade, alegria. Riso, choro, cheiro, gosto. Quando foi mesmo que visitei esses lugares? Ontem? Semana passada? Há treze anos, quando estive pela primeira vez na Inglaterra?
Penso então na necessidade que temos de delimitar o tempo, definir quando algo aconteceu e o quanto durou. Como se o valor de uma experiência se medisse por ser ela mais ou menos próxima, mais ou menos longa. Pois digo que, de imediato, não sei responder quando visitei cada lugar. Não sei ao certo quantos minutos ou horas se passaram enquanto estive em cada um. Mas sei dizer que vivi cada lugar intensamente. Cada minuto como se fossem horas. E com certeza este é um importante insight que tive nestes quinze dias: intensidade não se mede pelo relógio, mas pela entrega ao momento presente. O que fiz mesmo ontem? E anteontem? Não sei bem. Sei sim o que faço agora: Deixo fluir as impressões que me impregnaram o corpo e a alma nestes últimos dias.
O taxi finalmente chega ao aeroporto de Heathrow. Retiro as malas pesadas por tentarem reter as lembranças da viagem. Olho mais uma vez o céu claro e admiro o dia de sol, despedindo-me de Londres. Atravesso a porta automática e sigo em direção ao balcão de check-in. Deixo para trás os lugares que visitei e levo pela frente as sensações que cada um me causou. Goodbye, London!
Ao longo dos quarenta minutos do percurso, aprecio a sequência de imagens que me invadem os olhos e despeço-me da Inglaterra. Os alunos do nobre bairro de Holland Park, que por duas semanas vi seguirem para a escola nas manhãs frias e cinzentas, terminam as aulas do dia e seguem em grupos para casa. O sol bronzeia as árvores secas, dourando seus galhos despidos pelo frio. A tela azul do céu é pincelada de branco nos traços deixados pelos aviões. Os carros vindos pela direita, em direção contrária ao taxi que me conduz, já não me trazem a estranheza de semanas atrás.
Definitivamente, quinze dias não é tempo suficiente para se modificarem os hábitos de uma vida, mas certamente podem nos trazer mudanças, especialmente se vividos com intensidade. Assim foram os meus dias de passeio por Londres e arredores: longos, extensos, intensos. Foram muitos os assuntos dos eventos em solo inglês: história, arte, gastronomia, natureza, multiculturalismo. Cada um vivenciado com imenso prazer, lenta e profundamente. Ao pensar no dia de ontem, preciso parar para lembrar o que fiz. Confundem-se lugares na minha mente e sensações no meu corpo. Até que chegam imagens e impressões mais nítidas: penhascos esculpidos em giz branco, mar rajado de dourado, céu de azul irretocável, ampla área de gramado verde, vento gelado nas faces, vontade de correr com os pés no ar e voar, sensação de liberdade. Penso na imensidão da natureza, no poder das forças desconhecidas e na pequenez da condição humana. Lembrei-me, afinal: Ontem, a caminho da cidade de Brighton, visitei Seven Sisters, a incrível cadeia de sete penhascos ao sul da Inglaterra.
A soberania da natureza de Seven Sisters leva meu pensamento a Stonehenge, o inexplicável monumento de pedras de cinco mil anos de idade. Não se sabe por que as pedras foram dispostas em círculo, quem as colocou onde estão ou como foram transportadas. Novamente penso nos mistérios da vida e o diminuto tamanho do homem diante do universo. Quando foi mesmo que visitei Stonehenge?
Das belezas naturais, meu pensamento se desloca para as construções históricas. Lembro a Abadia de Westminster e suas paredes seculares, seus túmulos régios e seus memoriais de personalidades da história britânica. Penso no quão grandioso o homem pode ser para toda a humanidade, mas também como a história de cada um de nós, inevitavelmente, termina. Seja em túmulo banhado a ouro ou em túmulo algum, todos temos o mesmo fim. Qual foi mesmo o dia em que visitei a Abadia de Westminster?
À medida que o taxi se aproxima do aeroporto, um mosaico de imagens se forma em meu pensamento: Covent Garden, Tower Bridge, Borough Market, Tate Modern, Tower of London, British Museum, Portobello Road ... E um amálgama de sensações se apodera de mim: Surpresa, espanto, melancolia, saudade, alegria. Riso, choro, cheiro, gosto. Quando foi mesmo que visitei esses lugares? Ontem? Semana passada? Há treze anos, quando estive pela primeira vez na Inglaterra?
Penso então na necessidade que temos de delimitar o tempo, definir quando algo aconteceu e o quanto durou. Como se o valor de uma experiência se medisse por ser ela mais ou menos próxima, mais ou menos longa. Pois digo que, de imediato, não sei responder quando visitei cada lugar. Não sei ao certo quantos minutos ou horas se passaram enquanto estive em cada um. Mas sei dizer que vivi cada lugar intensamente. Cada minuto como se fossem horas. E com certeza este é um importante insight que tive nestes quinze dias: intensidade não se mede pelo relógio, mas pela entrega ao momento presente. O que fiz mesmo ontem? E anteontem? Não sei bem. Sei sim o que faço agora: Deixo fluir as impressões que me impregnaram o corpo e a alma nestes últimos dias.
O taxi finalmente chega ao aeroporto de Heathrow. Retiro as malas pesadas por tentarem reter as lembranças da viagem. Olho mais uma vez o céu claro e admiro o dia de sol, despedindo-me de Londres. Atravesso a porta automática e sigo em direção ao balcão de check-in. Deixo para trás os lugares que visitei e levo pela frente as sensações que cada um me causou. Goodbye, London!
domingo, 1 de janeiro de 2012
O que se leva da vida?
A pergunta é um grande lugar-comum, mas é ela que me vem à mente ao sentar-me na pequena poltrona da sala deste pitoresco apartamento na Boulevard Saint Michel, número 34, em Quartier Latin. Após arrumar as malas que me acompanharão na partida da França amanhã, sento-me para descansar um pouco e ouço as badaladas do sino de uma igreja próxima soarem doze vezes: meio-dia de primeiro de janeiro de 2012. Olhando o céu cinza claro e brilhante de Paris através da janela que me protege contra o frio, lembro-me da luminosidade dos quadros de Van Gogh deixados ontem no Musée d’Orsay.
E me chega ao pensamento a pergunta: O que se leva da vida?
Afrouxo os músculos cansados das caminhadas dos últimos dias, desfruto o aroma do brie da manhã ainda pairando no ambiente, fixo o olhar nas chaminés dos telhados vizinhos e me entrego ao silêncio do momento. O que se leva da vida? Surge uma nova imagem diante dos meu olhar perdido. Esta agora repleta de detalhes e informações. Para apreciá-la, concentro-me em suas minúcias como os entalhes dos portais da monumental Notre Dame: Noite clara e fria, iluminação festiva no pier número 7, ambiente de meia-luz no interior da embarcação. Suave música francesa na voz de mulher, notas de contra-baixo, acordes de violão e piano. Mesa para dois na lateral envidraçada. Rosas vermelhas e contas transparentes e negras sobre a toalha branca. Kir royale, vinho branco, vinho tinto e champagne acompanhando pratos de degustação. As águas do Sena refletidas no teto de vidro e o deslizar suave do bateaux. As mais belas construções da Cidade Luz nos saudando às margens do rio. Ponte Nova, pontes velhas, Ponte Alexandre. Variadas nacionalidades reunidas na noite de réveillon: Anas, Anettes, Annies brindando o novo ano.
O que se leva da vida? Bem, na tentativa de compartilhar a magia de estar em Paris às vésperas do ano novo, deixo a minha resposta: Leva-se da vida a fé nas coisas boas que certamente virão – ainda que o céu esteja cinza (claro ou escuro). Leva-se da vida o reconhecimento das conquistas individuais – ainda que elas não sejam monumentais. E, acima, de tudo, leva-se da vida o eterno agradecimento pela oportunidade de viver!
Que em 2012 nós saibamos responder a pergunta tão lugar-comum de uma forma realmente especial e única! Bonne Anné!
E me chega ao pensamento a pergunta: O que se leva da vida?
Afrouxo os músculos cansados das caminhadas dos últimos dias, desfruto o aroma do brie da manhã ainda pairando no ambiente, fixo o olhar nas chaminés dos telhados vizinhos e me entrego ao silêncio do momento. O que se leva da vida? Surge uma nova imagem diante dos meu olhar perdido. Esta agora repleta de detalhes e informações. Para apreciá-la, concentro-me em suas minúcias como os entalhes dos portais da monumental Notre Dame: Noite clara e fria, iluminação festiva no pier número 7, ambiente de meia-luz no interior da embarcação. Suave música francesa na voz de mulher, notas de contra-baixo, acordes de violão e piano. Mesa para dois na lateral envidraçada. Rosas vermelhas e contas transparentes e negras sobre a toalha branca. Kir royale, vinho branco, vinho tinto e champagne acompanhando pratos de degustação. As águas do Sena refletidas no teto de vidro e o deslizar suave do bateaux. As mais belas construções da Cidade Luz nos saudando às margens do rio. Ponte Nova, pontes velhas, Ponte Alexandre. Variadas nacionalidades reunidas na noite de réveillon: Anas, Anettes, Annies brindando o novo ano.
O que se leva da vida? Bem, na tentativa de compartilhar a magia de estar em Paris às vésperas do ano novo, deixo a minha resposta: Leva-se da vida a fé nas coisas boas que certamente virão – ainda que o céu esteja cinza (claro ou escuro). Leva-se da vida o reconhecimento das conquistas individuais – ainda que elas não sejam monumentais. E, acima, de tudo, leva-se da vida o eterno agradecimento pela oportunidade de viver!
Que em 2012 nós saibamos responder a pergunta tão lugar-comum de uma forma realmente especial e única! Bonne Anné!
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Papai Noel Não Morreu
Deve ter sido o ano 2000 ou 2001. Certamente final do ano, novembro ou início de dezembro, pois o Natal se aproximava, mas o ano letivo ainda não terminara. Escolas, edifícios residenciais, shopping centers e monumentos cobertos de luzezinhas coloridas; renas, trenós, árvores e bolas natalinas por todos os cantos; brinquedos maravilhosos apresentados nas telas de tevê, prontos para serem recolhidos pelo bom velhinho e entregues às crianças comportadas e obedientes na noite mais esperada do calendário anual.
Os adultos podem não se encantar com as imagens de Papai Noel que se proliferam pela cidade nessa época (embora a muitos inconfessos sua figura traga uma terna nostalgia), mas não há criança que se mantenha imune à onipresença do velho barbudo de roupas vermelhas e brancas. E não importa se a estatura do velhinho é variável, se está ora acima do peso, ora um tanto desnutrido, se por vezes usa óculos e por outras, enxerga com nitidez. Papai Noel é único e insubstituível, ainda que sua imagem se multiplique e sua aparência sofra constantes mutações.
Onisciente, ele tem pleno conhecimento do que as crianças pensam e de como agem. E por isso sabe quem merece ou não ter os seus pedidos atendidos na noite de Natal. Com sua onipresença e onisciência, Papai Noel é um pedacinho de Deus, que se personifica no mês de dezembro (E de uns anos pra cá, a partir de novembro – quiçá outubro, passado o dia das crianças). Um outro detalhe a respeito desta ilustre figura é que entra ano, sai ano e Papai Noel não envelhece (mais) e, é claro, não morre! Imaginem que lástima milhares de crianças desamparadas na noite de Natal se Papai Noel morresse. Comoção infinda para crianças, adultos nostálgicos e comerciantes de várias partes do mundo. Que triste pensar na morte do Papai Noel.
Pois foi essa tristeza que inundou Mayara, minha filha, por volta dos seus seis anos de idade. Tudo começou com as costumeiras luzezinhas, as decorações de Natal e todo o clima ao mesmo tempo efusivo e reflexivo que permeia o final do ano. Sensível e esperta, Mayara sempre foi. Envolvida pela atmosfera natalina, sua sensibilidade costumava presentear a nós, familiares, com interpretações teatrais na noite de Natal, como a borboleta pequenina e feiticeira que vinha trazida do rosal nos seus gestos esfuziantes e em sua voz alta, escondendo Marisa Monte, que ecoava ao longe através das caixas do CD player. Nas semanas anteriores ao Natal a que me refiro neste texto, a sensibilidade e esperteza de Mayara me presentearam de uma forma completamente inesperada. Suas reflexões e indagações sobre o velho Noel me revelaram muita clareza e coerência no seu raciocínio tão jovem – sem dúvida um grande presente para esta mãe orgulhosa. Entretanto, o inesperado me surpreendeu de tal modo que eu não soube lidar com o improviso. E o meu despreparo causou em minha filha uma grande tristeza.
A conversa se passou à noite em seu quarto:
_ Mãe, posso perguntar uma coisa?
_Claro, filha. O que é? - Respondi de pronto, sempre disposta a incentivar indagações, curiosidades e diálogo familiar.
_Papai Noel sabe tudo que a gente faz, né?
_ É. - Respondi sem hesitação e sem maiores expectativas de extensão da conversa.
_ Ele vê todo mundo, mesmo sem que a gente veja ele, né?
_É ... – Respondi, agora com alguma hesitação, querendo não entrar em detalhes, mas querendo também não traçar um caminho de inverdades.
Eis que o inesperado começou a anunciar-se:
_Se Papai Noel vê todo mundo, mas ninguém vê ele, se ele sabe o que todo mundo faz, mas ninguém sabe onde ele está, ele é um espírito?
Constatei naquele instante o quanto as crianças são perspicazes. Com certeza Mayara absorvia muito mais as conversas sobre espiritismo que seu padrinho trazia aos adultos do que poderíamos supor. Com ainda mais hesitação, e certo temor do que poderia estar por vir, respondi:
_ Hum ... é ...
A expressão de Mayara começou a modificar-se. Com a testa franzida, os olhinhos apertados e os lábios semi-trêmulos, deu continuidade ao seu pensamento lógico:
_Se Papai Noel é um espírito ... (pausa para a conclusão derradeira) ... ele morreu?
Golpe mortal, em mim e no Papai Noel. Atingida em cheio pela sensibilidade da minha filha, foi-se embora com Papai Noel a minha habilidade materna:
_Ééé... ele morreu.
O mundo veio abaixo. Choro, desespero, desesperança, dor.
_Papai Noel morreu! Papai Noel morreu! - Soluçava Mayara.
Diante da morte do Papai Noel e do desespero da minha filha, eu menos ainda sabia o que fazer ou como agir. Tentei desdizer:
_Não, não é bem assim. É que ele sabe tudo, vê tudo, ele é um espírito, mas ... Eu me enrolava e Mayara não queria mais ouvir. Choramingos daqui, soluços de lá, e logo era hora de dormir.
No dia seguinte, nada se falou sobre o assunto. O silêncio pareceu ser a melhor expressão de luto, da Mayara e meu. Ao deixá-la na porta da sala de aula, como de costume, chamei a professora num canto do corredor e, envergonhada, confessei tudo o que acontecera na véspera. Pedi que ela observasse o comportamento da Mayara e sua reação diante de uma notícia tão brutal.
Passei o dia aflita, na expectativa de como Mayara iria comportar-se e na repercussão que o fato poderia ter para as outras crianças, por toda a escola, nas suas casas, suas famílias. Meu Deus, eu tinha matado o Papai Noel!
No final da tarde fui à escola buscar Mayara. Ansiosa, cheguei à porta da salinha e tia Cris veio me receber.
_ Como foi? Como ela se comportou? – Perguntei apreensiva.
Com a alegria dos vinte e poucos anos, tia Cris disse que Mayara reportou tudo a ela no inicio da aula, mas disse não acreditar no eu lhe contara. E perguntou a ela, tia Cris, se era verdade o que eu havia dito. Ufa! Um enorme peso era liberado da minha consciência naquele momento. Senti-me extremamente aliviada, por mim, por Mayara e todas as crianças. Papai Noel não morreu!
Passada a minha sensação de alívio veio a pergunta: Mas, afinal, o que disse a tia Cris? Que eu não tinha falado a verdade? Que eu tinha criado uma mentira? Uma nova preocupação se aproximava de mim. Eu não queria matar Papai Noel, mas não queria ser uma mãe mentirosa. Tia Cris me explicou, então, como Mayara se convenceu:
_ Mayara, o que nós precisamos respirar para viver?
_O ar, tia!
_E o ar existe?
_Claro, né, tia! Que pergunta!
_Mas você vê o ar?
_Não, né tia!
_E você sente o ar? Sente o vento? Sente o ar frio? O ar quente?
_Sinto!!!
_Você sente, mas não vê. Pois então, Mayara, assim é o Papai Noel. Nós não o vemos todo o tempo, mas podemos senti-lo sempre, sentindo sua bondade. E sabemos que ele existe.
Santa tia Cris! Com certeza o espírito natalino a inspirou para que sua resposta fosse a que foi: singela aos olhos de uma criança, profunda para quem já viveu um pouco mais, e de um modo ou de outro, simplesmente verdadeira.
Daquele dia em diante, não comentamos mais sobre o assunto. Mayara continuou a falar sobre Papai Noel com os mesmos sonhos, fantasias e entusiasmo de antes. E acenava para o velhinho, vivinho, nos shoppings e ruas, aguardando a retribuição do aceno.
Fui sempre muito agradecida à tia Cris, que com seus vinte e poucos anos, sua alegria e descontração, salvou Papai Noel da morte, evitou traumas infantis e maternos, e sabiamente nos lembrou que “há mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. De fato nem sempre é preciso ver para se reconhecer a existência. Basta sentir. E na sutileza dessa sensação, entregar-se ao que se crê ser verdadeiro, sem reservas.
Que no Natal que se aproxima, nós todos possamos crer na existência do Papai Noel como símbolo das mais belas emoções. E que o seu presente maior para cada um seja acreditar no que se imagina verdadeiro para si, especialmente, o seu próprio ser. Que Papai Noel traga a cada um de nós a crença em si mesmo. Feliz Natal!
Os adultos podem não se encantar com as imagens de Papai Noel que se proliferam pela cidade nessa época (embora a muitos inconfessos sua figura traga uma terna nostalgia), mas não há criança que se mantenha imune à onipresença do velho barbudo de roupas vermelhas e brancas. E não importa se a estatura do velhinho é variável, se está ora acima do peso, ora um tanto desnutrido, se por vezes usa óculos e por outras, enxerga com nitidez. Papai Noel é único e insubstituível, ainda que sua imagem se multiplique e sua aparência sofra constantes mutações.
Onisciente, ele tem pleno conhecimento do que as crianças pensam e de como agem. E por isso sabe quem merece ou não ter os seus pedidos atendidos na noite de Natal. Com sua onipresença e onisciência, Papai Noel é um pedacinho de Deus, que se personifica no mês de dezembro (E de uns anos pra cá, a partir de novembro – quiçá outubro, passado o dia das crianças). Um outro detalhe a respeito desta ilustre figura é que entra ano, sai ano e Papai Noel não envelhece (mais) e, é claro, não morre! Imaginem que lástima milhares de crianças desamparadas na noite de Natal se Papai Noel morresse. Comoção infinda para crianças, adultos nostálgicos e comerciantes de várias partes do mundo. Que triste pensar na morte do Papai Noel.
Pois foi essa tristeza que inundou Mayara, minha filha, por volta dos seus seis anos de idade. Tudo começou com as costumeiras luzezinhas, as decorações de Natal e todo o clima ao mesmo tempo efusivo e reflexivo que permeia o final do ano. Sensível e esperta, Mayara sempre foi. Envolvida pela atmosfera natalina, sua sensibilidade costumava presentear a nós, familiares, com interpretações teatrais na noite de Natal, como a borboleta pequenina e feiticeira que vinha trazida do rosal nos seus gestos esfuziantes e em sua voz alta, escondendo Marisa Monte, que ecoava ao longe através das caixas do CD player. Nas semanas anteriores ao Natal a que me refiro neste texto, a sensibilidade e esperteza de Mayara me presentearam de uma forma completamente inesperada. Suas reflexões e indagações sobre o velho Noel me revelaram muita clareza e coerência no seu raciocínio tão jovem – sem dúvida um grande presente para esta mãe orgulhosa. Entretanto, o inesperado me surpreendeu de tal modo que eu não soube lidar com o improviso. E o meu despreparo causou em minha filha uma grande tristeza.
A conversa se passou à noite em seu quarto:
_ Mãe, posso perguntar uma coisa?
_Claro, filha. O que é? - Respondi de pronto, sempre disposta a incentivar indagações, curiosidades e diálogo familiar.
_Papai Noel sabe tudo que a gente faz, né?
_ É. - Respondi sem hesitação e sem maiores expectativas de extensão da conversa.
_ Ele vê todo mundo, mesmo sem que a gente veja ele, né?
_É ... – Respondi, agora com alguma hesitação, querendo não entrar em detalhes, mas querendo também não traçar um caminho de inverdades.
Eis que o inesperado começou a anunciar-se:
_Se Papai Noel vê todo mundo, mas ninguém vê ele, se ele sabe o que todo mundo faz, mas ninguém sabe onde ele está, ele é um espírito?
Constatei naquele instante o quanto as crianças são perspicazes. Com certeza Mayara absorvia muito mais as conversas sobre espiritismo que seu padrinho trazia aos adultos do que poderíamos supor. Com ainda mais hesitação, e certo temor do que poderia estar por vir, respondi:
_ Hum ... é ...
A expressão de Mayara começou a modificar-se. Com a testa franzida, os olhinhos apertados e os lábios semi-trêmulos, deu continuidade ao seu pensamento lógico:
_Se Papai Noel é um espírito ... (pausa para a conclusão derradeira) ... ele morreu?
Golpe mortal, em mim e no Papai Noel. Atingida em cheio pela sensibilidade da minha filha, foi-se embora com Papai Noel a minha habilidade materna:
_Ééé... ele morreu.
O mundo veio abaixo. Choro, desespero, desesperança, dor.
_Papai Noel morreu! Papai Noel morreu! - Soluçava Mayara.
Diante da morte do Papai Noel e do desespero da minha filha, eu menos ainda sabia o que fazer ou como agir. Tentei desdizer:
_Não, não é bem assim. É que ele sabe tudo, vê tudo, ele é um espírito, mas ... Eu me enrolava e Mayara não queria mais ouvir. Choramingos daqui, soluços de lá, e logo era hora de dormir.
No dia seguinte, nada se falou sobre o assunto. O silêncio pareceu ser a melhor expressão de luto, da Mayara e meu. Ao deixá-la na porta da sala de aula, como de costume, chamei a professora num canto do corredor e, envergonhada, confessei tudo o que acontecera na véspera. Pedi que ela observasse o comportamento da Mayara e sua reação diante de uma notícia tão brutal.
Passei o dia aflita, na expectativa de como Mayara iria comportar-se e na repercussão que o fato poderia ter para as outras crianças, por toda a escola, nas suas casas, suas famílias. Meu Deus, eu tinha matado o Papai Noel!
No final da tarde fui à escola buscar Mayara. Ansiosa, cheguei à porta da salinha e tia Cris veio me receber.
_ Como foi? Como ela se comportou? – Perguntei apreensiva.
Com a alegria dos vinte e poucos anos, tia Cris disse que Mayara reportou tudo a ela no inicio da aula, mas disse não acreditar no eu lhe contara. E perguntou a ela, tia Cris, se era verdade o que eu havia dito. Ufa! Um enorme peso era liberado da minha consciência naquele momento. Senti-me extremamente aliviada, por mim, por Mayara e todas as crianças. Papai Noel não morreu!
Passada a minha sensação de alívio veio a pergunta: Mas, afinal, o que disse a tia Cris? Que eu não tinha falado a verdade? Que eu tinha criado uma mentira? Uma nova preocupação se aproximava de mim. Eu não queria matar Papai Noel, mas não queria ser uma mãe mentirosa. Tia Cris me explicou, então, como Mayara se convenceu:
_ Mayara, o que nós precisamos respirar para viver?
_O ar, tia!
_E o ar existe?
_Claro, né, tia! Que pergunta!
_Mas você vê o ar?
_Não, né tia!
_E você sente o ar? Sente o vento? Sente o ar frio? O ar quente?
_Sinto!!!
_Você sente, mas não vê. Pois então, Mayara, assim é o Papai Noel. Nós não o vemos todo o tempo, mas podemos senti-lo sempre, sentindo sua bondade. E sabemos que ele existe.
Santa tia Cris! Com certeza o espírito natalino a inspirou para que sua resposta fosse a que foi: singela aos olhos de uma criança, profunda para quem já viveu um pouco mais, e de um modo ou de outro, simplesmente verdadeira.
Daquele dia em diante, não comentamos mais sobre o assunto. Mayara continuou a falar sobre Papai Noel com os mesmos sonhos, fantasias e entusiasmo de antes. E acenava para o velhinho, vivinho, nos shoppings e ruas, aguardando a retribuição do aceno.
Fui sempre muito agradecida à tia Cris, que com seus vinte e poucos anos, sua alegria e descontração, salvou Papai Noel da morte, evitou traumas infantis e maternos, e sabiamente nos lembrou que “há mais entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”. De fato nem sempre é preciso ver para se reconhecer a existência. Basta sentir. E na sutileza dessa sensação, entregar-se ao que se crê ser verdadeiro, sem reservas.
Que no Natal que se aproxima, nós todos possamos crer na existência do Papai Noel como símbolo das mais belas emoções. E que o seu presente maior para cada um seja acreditar no que se imagina verdadeiro para si, especialmente, o seu próprio ser. Que Papai Noel traga a cada um de nós a crença em si mesmo. Feliz Natal!
quinta-feira, 1 de dezembro de 2011
Isto e Aquilo
“Não sei se brinco, não sei se estudo, se saio correndo ou fico tranquilo.” Foi este padrão excludente que adotei na vida desde quando minha memória me permite lembrar. Quando criança, brincar ou estudar eram alternativas que se apresentavam à tarde, após a chegada da escola e a pausa do almoço. Eu poderia brincar e depois estudar. Ou estudar antes de brincar. Aluna aplicada como sempre fui, entretanto, a dúvida logo desaparecia e estudar geralmente se impunha, excluindo a possibilidade de brincar, qualquer que fosse a ordem entre ambas alternativas. Quanto a correr ou ficar tranquila, a segunda opção era sempre a escolhida. Verdade criada por mim mesma, filha exemplar deveria expressar tranquilidade. Caso contrário, ela poderia não ser tão querida. Portanto, a escolha estava feita.
A ótica dualista que adquiri na infância - não me pergunte o porquê – permeou toda a minha adolescência: “Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.” E eu geralmente optava por ficar no chão. Movida pela dedicação aos estudos e muita disciplina, foi com os pés no chão que eu passei grande parte dos meus teen ages debruçada sobre a escrivaninha do meu quarto, lendo e estudando enquanto a maioria dos amigos saía para se divertir. Foi com os mesmo pés no chão que fui aprovada no vestibular de Medicina da Universidade Federal Fluminense aos dezesseis anos e decidi abandonar o curso médico pela faculdade de Letras dois anos depois, ainda que sob certo protesto da família. Subir nos ares acontecia sim, embora muito tímida e particularmente. Como boa pisciana, eu não deixei de sonhar.
Atingi a fase adulta. Aos vinte e um anos, inaugurei minha vida profissional, e aos vinte e quatro, casei-me. Desconstruindo os meus próprios paradigmas, consegui conviver bem com a dualidade‘esposa e profissional’ durante todo o meu casamento. Na verdade, a flexibilidade de horário que as aulas de inglês me ofereciam permitia que eu desempenhasse minhas duas funções perfeitamente, sem prejuízo ou a exclusão de uma ou outra.
Passados três anos, iniciei a mais bela etapa de vida que a natureza possibilita a uma mulher: ser mãe. Seduzida pelo encantamento típico dos bebês e inexperiente na função materna, passei a dedicar-me integralmente à minha filha. Nos seus primeiros anos de vida, eu não admitia alternativa aos cuidados e à atenção que dispensava a ela, bem maiores que à minha própria vida particular. E não lamentava que não pudesse estar ao mesmo tempo em dois lugares, pois era com ela que eu queria estar todo o tempo.
Mas o tempo passou, minha filha cresceu e cresci eu em experiência de vida. Hoje entendo que uma escolha não precisa excluir a outra. Peço licença à mestra Cecília Meireles e discordo que “ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva”. Sol e chuva se combinam num magnífico céu de cores formadas pelos fenômenos de reflexão e refração. São os dois juntos que realizam a mágica do arco-íris para o nosso contemplar.
Hoje olho para trás e penso com muita placidez nas escolhas que não fiz. Brinquei, corri, subi nos ares e cuidei de mim menos do que poderia ter feito, é verdade. Porém, fiz o que pude fazer de melhor em cada momento. Para entender que eu poderia ter feito diferente, precisei crescer e enxergar a vida sob uma nova ótica. Só o passar dos anos me permitiu adquirir essa nova visão. Hoje vejo que é possível brincar e estudar, correr e ficar tranquila, subir nos ares e ficar no chão, dedicar-se aos filhos e a si própria. É tudo uma questão de equilíbrio. Para quem não entendeu ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo, pode ter certeza da escolha. Melhor é isto e aquilo.
A ótica dualista que adquiri na infância - não me pergunte o porquê – permeou toda a minha adolescência: “Quem sobe nos ares não fica no chão, quem fica no chão não sobe nos ares.” E eu geralmente optava por ficar no chão. Movida pela dedicação aos estudos e muita disciplina, foi com os pés no chão que eu passei grande parte dos meus teen ages debruçada sobre a escrivaninha do meu quarto, lendo e estudando enquanto a maioria dos amigos saía para se divertir. Foi com os mesmo pés no chão que fui aprovada no vestibular de Medicina da Universidade Federal Fluminense aos dezesseis anos e decidi abandonar o curso médico pela faculdade de Letras dois anos depois, ainda que sob certo protesto da família. Subir nos ares acontecia sim, embora muito tímida e particularmente. Como boa pisciana, eu não deixei de sonhar.
Atingi a fase adulta. Aos vinte e um anos, inaugurei minha vida profissional, e aos vinte e quatro, casei-me. Desconstruindo os meus próprios paradigmas, consegui conviver bem com a dualidade‘esposa e profissional’ durante todo o meu casamento. Na verdade, a flexibilidade de horário que as aulas de inglês me ofereciam permitia que eu desempenhasse minhas duas funções perfeitamente, sem prejuízo ou a exclusão de uma ou outra.
Passados três anos, iniciei a mais bela etapa de vida que a natureza possibilita a uma mulher: ser mãe. Seduzida pelo encantamento típico dos bebês e inexperiente na função materna, passei a dedicar-me integralmente à minha filha. Nos seus primeiros anos de vida, eu não admitia alternativa aos cuidados e à atenção que dispensava a ela, bem maiores que à minha própria vida particular. E não lamentava que não pudesse estar ao mesmo tempo em dois lugares, pois era com ela que eu queria estar todo o tempo.
Mas o tempo passou, minha filha cresceu e cresci eu em experiência de vida. Hoje entendo que uma escolha não precisa excluir a outra. Peço licença à mestra Cecília Meireles e discordo que “ou se tem chuva e não se tem sol, ou se tem sol e não se tem chuva”. Sol e chuva se combinam num magnífico céu de cores formadas pelos fenômenos de reflexão e refração. São os dois juntos que realizam a mágica do arco-íris para o nosso contemplar.
Hoje olho para trás e penso com muita placidez nas escolhas que não fiz. Brinquei, corri, subi nos ares e cuidei de mim menos do que poderia ter feito, é verdade. Porém, fiz o que pude fazer de melhor em cada momento. Para entender que eu poderia ter feito diferente, precisei crescer e enxergar a vida sob uma nova ótica. Só o passar dos anos me permitiu adquirir essa nova visão. Hoje vejo que é possível brincar e estudar, correr e ficar tranquila, subir nos ares e ficar no chão, dedicar-se aos filhos e a si própria. É tudo uma questão de equilíbrio. Para quem não entendeu ainda qual é melhor: se é isto ou aquilo, pode ter certeza da escolha. Melhor é isto e aquilo.
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